Graça Carvalho, ministra da Ciência e Ensino Superior, considera
Universidades devem ser o "motor" das empresas

Edição de 24 de Junho de 2004

Destaques   Empresas e universidades devem envolver-se em projectos de consórcio
  Modelo económico baseado em baixos salários está esgotado
  Licenciados no desemprego vão poder frequentar programas de reconversão
  Internacionalização exige maior mobilidade de professores e alunos
Estamos a viver um momento de viragem. O modelo económico baseado em salários baixos está esgotado. A nossa competitividade e produtividade dependem em larga medida da transferência de tecnologia e investigação para as empresas. "Ou percebemos isso ou perdemos o comboio" - afirma, em entrevista à "Vida Enonómica", Graça Carvalho, ministra da Ciência e Ensino Superior.
"Temos todos de criar uma cultura científica na nossa sociedade e as instituições de ensino superior têm de ser o motor desse desenvolvimento". Graça Carvalho fala numa ligação universidades-empresas através de projectos mobilizadores, projectos de consórcio, das oficinas de transferência de tecnologia e, inclusive, da inserção de mestres e doutores nas empresas.
Sobre o sistema de ensino superior, Graça Carvalho diz que não há universidades a mais mas licenciados a menos e que, em Portugal, é preciso continuar a promover a excelência no ensino e na investigação.
  • Para a ministra da Ciência e Ensino Superior, Graça Carvalho, uma das mais recentes entrevistadas da "Vida Económica", não há margem para dúvidas. As universidades mais do que nunca desempenham um papel de relevo na nossa sociedade. Estas instituições têm de ser o motor do desenvolvimento do país e das empresas. E como poderá ser isto feito?
  • Para Graça Carvalho, a resposta é clara: por via da criação de uma "cultura científica". A nossa competitividade e produtividade, destaca a ministra, dependem em larga medida da transferência de tecnologia e investigação para as empresas. De outra forma, destaca ainda Graça Carvalho, perdemos o comboio. "O modelo económico baseado em salários baixos está esgotado", acrescenta.

Vida Económica - A declaração de Bolonha traz uma série de novas propostas. Na sua opinião, qual delas poderá incutir ao ensino superior português um maior desenvolvimento?
Graça Carvalho -
Penso que uma das mais importantes é o incentivo à mobilidade. Mobilidade dentro do País e no estrangeiro. Estamos perante a internacionalização do sistema de ensino superior. A partir de 2005, teremos mais mobilidade de alunos, professores e investigadores. As instituições de ensino superior terão de estar preparadas para esta mudança, que, naturalmente, irá provocar uma maior abertura ao exterior e uma maior competitividade a nível nacional e internacional.

VE - Este documento prevê também uma maior racionalização na designação dos cursos. Algo já há muito tempo defendido por muitos. Considera que as universidades públicas e privadas vão acatar e seguir este mediada?
GC -
As instituições não têm alternativa. A aplicação do processo de Bolonha implica toda uma reorganização da rede de ensino superior, nomeadamente ao nível da organização de cursos em termos curriculares e harmonização das suas designações. A avaliação terá também um papel determinante nesse reordenamento.

VE - A declaração de Bolonha, dizem alguns, veio banalizar as formações pós-graduadas como por exemplo os mestrados. Como comenta esta posição?
GC -
Num sentido positivo, a banalização dos mestrados é desejável e sinónimo de que os portugueses querem mais e mais qualificação e que têm consciência que a formação inicial já não é suficiente em termos de qualificação e empregabilidade. Mas não se pode concluir isso pelo facto de estarmos a redefinir o tempo de duração da formação inicial, dos mestrados e doutoramentos. Mas acho importante que se crie o sentimento de que fazer um mestrado não é nada de excepcional, mas sim um complemento de formação natural.

VE - Os CET (Cursos de Especialização Tecnológica) são uma resposta à falta de quadros médios de que padece o país?
GC -
Os CET são uma proposta muito interessante para todos os alunos que, por qualquer razão, não queiram ingressar num curso superior, mas desejam uma formação intermédia que lhes possibilite aceder mais depressa ao mercado de trabalho. Os CET, vulgarmente designados por cursos de nível IV, estão na origem do rápido desenvolvimento do tecido produtivo de muitos países europeus, pela sua ligação directa às necessidades do mercado e pelo contributo que têm dado no âmbito da formação profissional.
O facto de em Portugal se leccionarem estes cursos em ambiente de ensino superior possibilita que os alunos que o desejem possam continuar os seus estudos mais tarde desde que lhes sejam dadas equivalências de algumas unidades de crédito.

VE - Os candidatos ao ensino superior têm vindo a diminuir. Como pensam o ministério e as universidades fazer face a esta mudança?
GC -
O Governo tem já em marcha um plano nacional de combate ao insucesso escolar no âmbito do ensino secundário que dará os seus frutos a curto prazo. No âmbito do Ensino Superior, temos de investir, em conjunto, na captação de novos públicos, nomeadamente na reconversão da população activa e ainda em mecanismos de combate ao insucesso escolar nas Universidades e Politécnicos. Registei com agrado, aquando da assinatura dos contratos-programa com as instituições, que muitas delas propuseram acções de combate ao insucesso escolar e ainda projectos que promovam a Matemática e a Física junto dos alunos, disciplinas que têm contribuído para grande parte do insucesso escolar nos nossos jovens. Nesta área o ministério já está a dinamizar um grupo de trabalho que se concentre na promoção da Matemática e da Física, nomeadamente através da reformulação da formação de professores nestas áreas.

VE - Há quem diga que, em Portugal, há um número exagerado de universidades. Como comenta este olhar sobre as nossas instituições?
GC -
Não temos Universidades a mais, temos é licenciados a menos.

VE - Há uma preocupação por parte do Governo no sentido de fomentar nas empresas a área da investigação, bem como o número de quadros qualificados, mestres e doutores. O mercado tem reagido bem a este tipo de medidas?
GC -
Estamos hoje num tempo de viragem no nosso desenvolvimento. Ou percebemos que a nossa competitividade e produtividade dependem em larga medida da transferência de tecnologia e investigação para as empresas ou perdemos o comboio. O modelo económico baseado em salários baixos está esgotado. Temos todos de criar uma cultura científica na nossa sociedade e as instituições de ensino superior têm de ser o motor desse desenvolvimento. Essa ligação Universidades/Empresas vai fazer-se através de diferentes tipologias de projectos. Estou a falar dos projectos mobilizadores, projectos em consórcio, das oficinas de transferência de tecnologia, mas também da inserção de mestres e doutores nas empresas. O mercado já percebeu as virtualidades desta ligação.

VE - As universidades foram, há, relativamente, pouco tempo, avaliadas. Podemos falar de instituições nível europeu ou estamos ainda muito longe de atingir esta meta?
GC -
Temos, em Portugal, cursos e unidades de investigação de excelência. Temos de continuar a promover a excelência no ensino superior e na investigação.

VE - O número de desempregados licenciados é elevado. Como pensa que se poderá inverter esta situação?
GC -
Dentro desse grave problema que é o desemprego, os licenciados, embora no desemprego, têm sempre mais hipóteses de colocação do que a mão-de-obra não qualificada. Não podemos fazer do desemprego de licenciados um pretexto para desmobilizar as pessoas quanto a uma formação mais prolongada. Penso que é importante definir áreas prioritárias e já o fizemos no âmbito da racionalização da rede de ensino superior. Não faz sentido estarmos a formar diplomados em áreas claramente saturadas e precisarmos de gente qualificada noutras para as quais há oferta de trabalho. Definimos, pois prioridades em termos das necessidades do país e de empregabilidade. Quanto aos licenciados no desemprego, iremos, brevemente, criar programas de reconversão através de bolsas para estágios na função pública e estamos a dar incentivos para a criação das suas próprias empresas.

"Temos, em Portugal, cursos e unidades de investigação de excelência. Temos de continuar a promover a excelência no ensino superior e na investigação"

"Não faz sentido estarmos a formar diplomados em áreas claramente saturadas e precisarmos de gente qualificada noutras"

 

Autor: Sandra Ribeiro

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