Estamos a viver um
momento de viragem. O modelo económico baseado em salários baixos está esgotado. A
nossa competitividade e produtividade dependem em larga medida da transferência de
tecnologia e investigação para as empresas. "Ou percebemos isso ou perdemos o
comboio" - afirma, em entrevista à "Vida Enonómica", Graça Carvalho,
ministra da Ciência e Ensino Superior.
"Temos todos de criar uma cultura científica na nossa sociedade e as instituições
de ensino superior têm de ser o motor desse desenvolvimento". Graça Carvalho fala
numa ligação universidades-empresas através de projectos mobilizadores, projectos de
consórcio, das oficinas de transferência de tecnologia e, inclusive, da inserção de
mestres e doutores nas empresas.
Sobre o sistema de ensino superior, Graça Carvalho diz que não há universidades a mais
mas licenciados a menos e que, em Portugal, é preciso continuar a promover a excelência
no ensino e na investigação.
- Para a ministra da Ciência e Ensino Superior, Graça
Carvalho, uma das mais recentes entrevistadas da "Vida Económica", não há
margem para dúvidas. As universidades mais do que nunca desempenham um papel de relevo na
nossa sociedade. Estas instituições têm de ser o motor do desenvolvimento do país e
das empresas. E como poderá ser isto feito?
- Para Graça Carvalho, a resposta é clara: por via da
criação de uma "cultura científica". A nossa competitividade e produtividade,
destaca a ministra, dependem em larga medida da transferência de tecnologia e
investigação para as empresas. De outra forma, destaca ainda Graça Carvalho, perdemos o
comboio. "O modelo económico baseado em salários baixos está esgotado",
acrescenta.
Vida Económica - A declaração de Bolonha traz
uma série de novas propostas. Na sua opinião, qual delas poderá incutir ao ensino
superior português um maior desenvolvimento?
Graça Carvalho - Penso que uma das mais importantes é o incentivo à
mobilidade. Mobilidade dentro do País e no estrangeiro. Estamos perante a
internacionalização do sistema de ensino superior. A partir de 2005, teremos mais
mobilidade de alunos, professores e investigadores. As instituições de ensino superior
terão de estar preparadas para esta mudança, que, naturalmente, irá provocar uma maior
abertura ao exterior e uma maior competitividade a nível nacional e internacional.
VE - Este documento prevê também uma maior
racionalização na designação dos cursos. Algo já há muito tempo defendido por
muitos. Considera que as universidades públicas e privadas vão acatar e seguir este
mediada?
GC - As instituições não têm alternativa. A aplicação do processo de
Bolonha implica toda uma reorganização da rede de ensino superior, nomeadamente ao
nível da organização de cursos em termos curriculares e harmonização das suas
designações. A avaliação terá também um papel determinante nesse reordenamento.
VE - A declaração de Bolonha, dizem alguns, veio
banalizar as formações pós-graduadas como por exemplo os mestrados. Como comenta esta
posição?
GC - Num sentido positivo, a banalização dos mestrados é desejável e
sinónimo de que os portugueses querem mais e mais qualificação e que têm consciência
que a formação inicial já não é suficiente em termos de qualificação e
empregabilidade. Mas não se pode concluir isso pelo facto de estarmos a redefinir o tempo
de duração da formação inicial, dos mestrados e doutoramentos. Mas acho importante que
se crie o sentimento de que fazer um mestrado não é nada de excepcional, mas sim um
complemento de formação natural.
VE - Os CET (Cursos de Especialização
Tecnológica) são uma resposta à falta de quadros médios de que padece o país?
GC - Os CET são uma proposta muito interessante para todos os alunos que, por
qualquer razão, não queiram ingressar num curso superior, mas desejam uma formação
intermédia que lhes possibilite aceder mais depressa ao mercado de trabalho. Os CET,
vulgarmente designados por cursos de nível IV, estão na origem do rápido
desenvolvimento do tecido produtivo de muitos países europeus, pela sua ligação directa
às necessidades do mercado e pelo contributo que têm dado no âmbito da formação
profissional.
O facto de em Portugal se leccionarem estes cursos em ambiente de ensino superior
possibilita que os alunos que o desejem possam continuar os seus estudos mais tarde desde
que lhes sejam dadas equivalências de algumas unidades de crédito.
VE - Os candidatos ao ensino superior têm vindo a
diminuir. Como pensam o ministério e as universidades fazer face a esta mudança?
GC - O Governo tem já em marcha um plano nacional de combate ao insucesso
escolar no âmbito do ensino secundário que dará os seus frutos a curto prazo. No
âmbito do Ensino Superior, temos de investir, em conjunto, na captação de novos
públicos, nomeadamente na reconversão da população activa e ainda em mecanismos de
combate ao insucesso escolar nas Universidades e Politécnicos. Registei com agrado,
aquando da assinatura dos contratos-programa com as instituições, que muitas delas
propuseram acções de combate ao insucesso escolar e ainda projectos que promovam a
Matemática e a Física junto dos alunos, disciplinas que têm contribuído para grande
parte do insucesso escolar nos nossos jovens. Nesta área o ministério já está a
dinamizar um grupo de trabalho que se concentre na promoção da Matemática e da Física,
nomeadamente através da reformulação da formação de professores nestas áreas.
VE - Há quem diga que, em Portugal, há um número
exagerado de universidades. Como comenta este olhar sobre as nossas instituições?
GC - Não temos Universidades a mais, temos é licenciados a menos.
VE - Há uma preocupação por parte do Governo no
sentido de fomentar nas empresas a área da investigação, bem como o número de quadros
qualificados, mestres e doutores. O mercado tem reagido bem a este tipo de medidas?
GC - Estamos hoje num tempo de viragem no nosso desenvolvimento. Ou percebemos
que a nossa competitividade e produtividade dependem em larga medida da transferência de
tecnologia e investigação para as empresas ou perdemos o comboio. O modelo económico
baseado em salários baixos está esgotado. Temos todos de criar uma cultura científica
na nossa sociedade e as instituições de ensino superior têm de ser o motor desse
desenvolvimento. Essa ligação Universidades/Empresas vai fazer-se através de diferentes
tipologias de projectos. Estou a falar dos projectos mobilizadores, projectos em
consórcio, das oficinas de transferência de tecnologia, mas também da inserção de
mestres e doutores nas empresas. O mercado já percebeu as virtualidades desta ligação.
VE - As universidades foram, há, relativamente,
pouco tempo, avaliadas. Podemos falar de instituições nível europeu ou estamos ainda
muito longe de atingir esta meta?
GC - Temos, em Portugal, cursos e unidades de investigação de excelência.
Temos de continuar a promover a excelência no ensino superior e na investigação.
VE - O número de desempregados licenciados é
elevado. Como pensa que se poderá inverter esta situação?
GC - Dentro desse grave problema que é o desemprego, os licenciados, embora no
desemprego, têm sempre mais hipóteses de colocação do que a mão-de-obra não
qualificada. Não podemos fazer do desemprego de licenciados um pretexto para desmobilizar
as pessoas quanto a uma formação mais prolongada. Penso que é importante definir áreas
prioritárias e já o fizemos no âmbito da racionalização da rede de ensino superior.
Não faz sentido estarmos a formar diplomados em áreas claramente saturadas e precisarmos
de gente qualificada noutras para as quais há oferta de trabalho. Definimos, pois
prioridades em termos das necessidades do país e de empregabilidade. Quanto aos
licenciados no desemprego, iremos, brevemente, criar programas de reconversão através de
bolsas para estágios na função pública e estamos a dar incentivos para a criação das
suas próprias empresas.
"Temos, em Portugal, cursos e unidades de
investigação de excelência. Temos de continuar a promover a excelência no ensino
superior e na investigação"
"Não faz sentido estarmos a formar
diplomados em áreas claramente saturadas e precisarmos de gente qualificada noutras"
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