| Prefácio Este é um livro que me dá enorme prazer prefaciar. Não porque é uma estreia (de ambos!) ou porque o autor me fica a dever umas gambas recheadas no Sebastião do Cantinho da Paz mas, fundamentalmente, por duas razões tão egoístas quanto essas.
Primeiro, porque vi nascer este livro. Não quando o autor me mostrou o primeiro manuscrito (em verdade não acredito que qualquer parte dele tenha sido alguma vez manuscrita) mas há uns bons dezasseis anos atrás, num quarto crepuscular em Faro, quando vi o Paulo programar um jogo de cartas num Spectrum. Nessa noite partilhámos e excitámo-nos com a parte mais imbecil desse novo e imenso poder. Mais de uma década depois, este livro continuava a escrever-se numa BBS (noutras palavras: um computador 386 ligado a uma linha telefónica) da Av. da República. Aí sim, já havíamos descoberto como utilizar inteligentemente o incomensurável poder de processamento dos CPUs. Depois veio a Internet e ainda depois a World-Wide-Web. Deixámos as nossas vidas fluir pelo Ciberespaço com uma curiosidade quase infantil. Tornámo-nos avatares, ou melhor, estendemos (na acepção de mestre McLuhan) os nossos sentidos e os nossos sentimentos através da rede de um modo demasiado natural para medirmos consequências (apesar disso ser, precisamente, a nossa profissão). E um dia, quando o Paulo me mostrou o tal manuscrito, apercebi-me subitamente que havíamos participado numa bela aventura. Certamente não tão perigosa e emocionante quanto a travessia de Angola à Contracosta de Capelo e Ivens; menos esforçada e brilhante que a viagem de Gama através do Cabo das Tormentas, mas provavelmente tão enriquecedora em termos pessoais quanto aquelas o foram para os seus autores. Sinceramente.
Dessa aventura conta este livro, e ainda bem que é o Paulo a fazê-lo, pois conhece-a como ninguém.
Segundo, porque os principais personagens deste livro não são os gurus do que quer que seja (muito embora estejam presentes) mas os nossos filhos: o Henrique, a Catarina, o Rafael Soares. E aqui não me move particular egoísmo: gostaria que o leitor tomasse consciência da importância de partilhar esta aventura que é a colonização do Ciberespaço com os seus nativos. Só assim se evitarão conflitos dolorosos e desnecessários. As relações entre as pessoas estão a tornar-se cada vez mais complexas: não só teremos de lidar com as nossas crianças (e com os outros adultos, já agora) no espaço real, como com os seus avatares, no Ciberespaço, onde os valores que regulam essas mesmas relações obedecem a uma lógica mais difusa. Talvez a mensagem mais importante deste livro seja a seguinte: não colonize, partilhe da cultura nativa!
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Algumas páginas mais adiante, Paulo Querido irá dizer que este é um livro difícil de catalogar. E é-o, certamente. Não só segundo a perspectiva que o autor desenvolve, mas também na resposta a esta simples pergunta: que escrita é esta?
Objectiva e quase científica, diria, mas ao mesmo tempo impregnada de um intimismo absolutamente subjectivista. De certo modo, recorda-me o mais belo livro de Barthes, «A Câmara Clara», onde como nunca se definiu tão objectivamente a fotografia escrevendo de um modo tão pouco científico. E o esboroar de velhos paradigmas justifica, a meu ver, esta nova forma de reflectir sobre as causas e os efeitos das coisas. As experiências pessoais, quando capazes de serem comungadas (leia-se: entendidas através dos sentimentos) por um largo número de nós, tornam-se portadoras de verdades tão absolutas quanto as fórmulas quânticas. Ou seja, são suficientes até se provarem erradas :-)
dr bakali
Lisboa, 23 de Fevereiro de 1998
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