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Sobre infor-fóbicos

Riso amarelo

Algumas frases que hoje dão vontade de rir:

- Há 100 anos:
«Na minha empresa não quero essa coisa do telephone.
Era só o que faltava! E depois quem é que trabalhava?!»

- Há 20 anos:
«Na minha empresa não quero computadores.
Isso é uma moda, só serve é para joguinhos».

Algumas frases que daqui a algum tempo darão vontade de rir:

«Internet na minha empresa?! Nem pensar!
Para que os gajos passem a vida a ver o Playboy?!»

«Correio electrónico na minha empresa?! Nem pensar!
Nunca foi preciso, para que era isso agora? Outra moda…»

Bem… quando se diz que estas frases darão vontade de rir “daqui a algum tempo”, comete-se uma simpática imprecisão:
É que elas dão vontade de rir… já e agora

Mas teremos de concordar que o riso, neste caso, é um riso triste, semelhante ao que, no circo, o palhaço pobre provoca. Porque é de pobreza, embora de um tipo especial, que se trata…

--ooOoo—

Todas as épocas tiveram os seus fantasmas. Todas as grandes alterações tecnológicas provocaram medos e fobias, ou seja: reacções negativas, umas racionais, outras irracionais.

Por exemplo:

O aparecimento das máquinas de costura (talvez o caso mais célebre) desencadeou a revolta dos alfaiates, que viram nelas o fim anunciado da sua profissão. (Os mais inteligentes terão, certamente, comprado uma e aprendido a trabalhar… mas é muito possível que tenham sido a excepção).

O problema é muito mais grave quando uma inovação é suficientemente importante para “atravessar” toda a sociedade. Grandes camadas da população (as mais ignorantes, ou as mais pobres, ou as mais velhas) podem sentir-se excluídas e marginalizadas.

E com razão.

Passa-se isso, claramente, com a informática:
Os computadores entraram em todo o lado.
E entraram com tal força e com tal profundidade, que quem não sabe trabalhar com eles pode hoje, justamente, considerar-se um “analfabeto”.
Chamemos-lhe, para que o termo não doa tanto, um info-analfabeto, ou, mais docemente ainda, um info-pobre.

(E quando se fala de info-pobres , pode não se tratar só de pessoas:
essa classificação aplica-se a empresas e até a países.
Neste último aspecto, todos nós sabemos onde nos classificamos…)

Mas, voltando aos casos pessoais, esse problema levanta um outro, muito mais agudo:
É que muitas vezes são precisamente as pessoas que estão à frente das empresas (ou funcionários que estão à frente dos serviços, ou professores que estão à frente de escolas, etc) que, por estarem nessa triste categoria, se vêem na situação desagradável de “sentir o chão a fugir-lhes debaixo dos pés”.
E o mal que podem causar, por acção (repressão) ou omissão pode ser enorme e irreparável.

Imagine-se uma grande empresa comercial ou industrial.

Imagine-se que essa empresa é maioritariamente dirigida por pessoas “do outro tempo”.

Imagine-se, por exemplo, que devido à falta de formação e informação, nessa empresa o correio electrónico não é implementado, a existência de uma Home-Page é uma coisa do outro mundo, e uma simples ligação à Internet um bicho-de-sete-cabeças…
Irá essa firma muito longe?
Talvez vá… porque, se for portuguesa e não tiver que competir com outras estrangeiras, estará perfeitamente afinada pelo padrão reinante.

É triste, mas é verdade:
A esmagadora maioria das empresas portuguesas, que podiam tirar vantagens incríveis com a Internet, simplesmente… ignoram-na!
Estão à espera umas das outras, ou que as casas-mãe estrangeiras (quando as há) as metam na ordem, acenando-lhes, de longe, com um enorme par de orelhas…

--ooOoo--

O que se irá passar?

As chamadas “novas tecnologias” quando satisfazem, de facto, necessidades reais, impõem-se por si mesmas. É uma questão de tempo. Aliás, diga-se antes que é uma questão de tempo… perdido…

Porque se há evoluções que, por muitas razões, só cá chegam muitos anos depois dos outros países, para estas de que agora falamos não há grandes motivos para isso:

Os computadores existem em número muito razoável, os modems são baratos, as ligações à Internet são quase de graça e as chamadas telefónicas são ao preço de uma chamada local…

Então o que é que faz com que uma empresa (e conhecemos tantas!) gaste centenas de contos por ano em faxes, telexes e telefones quando podia gastar apenas umas centenas de escudos se usasse correio electrónico?

Como é que se explica que nessas mesmas firmas se percam horas e horas (ou dias!) à procura de uma informação que possivelmente se pode obter na Internet em alguns minutos?

Como é que é possível que continuem a gastar fortunas em catálogos (rapidamente desactualizados…) quando uma Home-Page lhes custaria, por mês, o preço de dois maços de tabaco?!
E, claro, esses catálogos são depois enviados por correio (quantas vezes por Express-Mail ou DHL) no que se gasta muito mais do que custaram a fazer…

--ooOoo--

Mas sejamos compreensivos:

Ter uma razoável parcela de irracionalismo é uma característica do mundo animal, e a raça humana não lhe podia fugir.
E se a Selecção Natural nos deixou, até agora, essa réstia de primarismo, por alguma razão o fez…
Na ausência de Darwin, cabe a cada um de nós tentar descobri-la…


FotoCarlos Medina Ribeiro é licenciado em Engenharia Electrotécnica no IST e tem por missão quebrar a infor-fobia daqueles que dela sofrem. É o responsável pela coluna "Sobre infor-fóbicos" na net.News.

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