Mudança de Ramo
Desde muito novo que
sempre me interessei por electrónica:
Nunca esquecerei a emoção da primeira "galena", das
delícias das compras na Feira da Ladra, nem o prazer de desmontar um velho rádio
enfim, toda uma experiência muito interessante que vivi apaixonadamente e com que muito
aprendi.
Mas o aparecimento dos computadores foi, para mim, um choque de
que só muito tarde me recompus.
Como foi possível que durante tanto tempo eu tivesse sido quase
um infor-fóbico se a informática, afinal, só era possível devido à electrónica?
Mas estive bem acompanhado: conheci muitos técnicos de alto
nível que sempre sofreram de uma infor-fobia de fazer inveja a um general reformado!
E um deles era o Sr. Oliveira que acabou, inclusivamente, por se
estabelecer como comerciante de componentes electrónicos.
Conhecida em muitos quilómetros em redor, a sua loja, sempre
cheia, sempre me pareceu uma capela com ele a oficiar sobre transístores e integrados,
perante uma assistência rendida a tanto saber.
Um dia, foi uma festa: o Sr. Oliveira comprara um computador!
E ali estava ele, brilhante, mas apagado
É que, embora o
Sr. Oliveira bem soubesse a vantagem que ele lhe traria para os negócios, precisava de
vencer uma barreira terrível: aprender o B-A-BA da informática.
E não lhe foi nada fácil. De qualquer forma invejei-o, pois
acabou por saber o estritamente necessário, e bem mais cedo do que alguns, entre os quais
me incluía:
«O que faz a necessidade!» - pensava eu muitas vezes.
«Agora bem jeito lhe faz
»
Passaram-se alguns anos.
Um dia, ao experimentar o Windows 95 lembrei-me logo:
«Ora aqui está uma coisa óptima para indivíduos como eu e o
Sr. Oliveira! Simples e evidente
era mesmo disto que nós precisávamos!»
Quando, finalmente, estive na sua loja, perguntei-lhe se já o
tinha o instalado. A sua resposta deixou-me desorientado:
«Para quê?! Olhe, é uma porcaria que só tem uma vantagem: à
custa dos palermas que querem essa coisa, farto-me de ganhar dinheiro a vender
memórias!»
Pronto, tivera uma recaída! Além de agora me incluir na lista
dos "palermas", mostrava claramente como é difícil a uma pessoa de certa idade
adaptar-se a coisas novas. Mesmo que essas coisas lhe possam simplificar a vida!
Bem, mas nada de grave
ooOoo
Quando apareceu a Internet, voltei a pensar nele:
«Ora a esta é que o homem não vai resistir! Anda sempre a
mandar faxes para a Coreia e para o Japão, e vai adorar saber o dinheiro que pode poupar
usando o correio electrónico! E as informações sobre os produtos? O que vai conseguir
fazer! Isto para ele vai ser um maná!»
ooOoo
Passados alguns meses visitei-o
Como eu já devia ter adivinhado, o amigo Oliveira não tinha
Internet. Nem sabia muito bem o que isso era!
E no entanto, mesmo ao lado do computador, tinha caixas e caixas
de modems para vender! (aos palermas, presumi eu
).
Não resisti, e falei-lhe do que andava a perder.
Ouviu-me atentamente, talvez só por boa educação, e no fim,
saiu-se com esta:
«Isso não há-de ser bem assim
Senão toda a gente já
tinha!»
Depois de palerma, chamava-me agora mentiroso! Ou, no mínimo,
criativo
Mas desculpei-o. E convidei-o, até, a vir a minha casa ver como é que eu
consultava sites distantes sem me preocupar com a conta telefónica.
Mas não se deu a esse trabalho: achava ele que era de tal modo
evidente que eu estava a inventar, que não valeria a pena cansar-se.
E ficou na dele
Algum tempo depois, voltei a encontrá-lo.
Andava irritado com o custo dos faxes!
«Boa!» pensei eu. «Vai dar-me razão! Agora é que o
homem vai comprar um NetPac!»
Queixava-se: não da conta do telefone, mas sim do papel que
gastava devido à publicidade que recebia! Além da despesa (pois o fax é um meio de
comunicação em que quem recebe também "contribui" ), isso ocupava-lhe o
aparelho quando mais precisava dele.
Perguntei-lhe então porque é que, ao menos, não usava o PC
como receptor de faxes. Assim não gastava papel, apagava o que não lhe interessasse,
etc, etc.
«Vou pensar nisso
» condescendeu. «Mas Internet
não quero!» (
)
ooOoo
Esta história teve um dos três fins seguintes:
1º FIM:
(
) Mas eu já devia saber "do que a casa gasta":
e o Sr. Oliveira continua, feliz e contente, rodeado de papeis por todo o lado, rindo-se
de cada vez que se lembra dos palermas que insistem em tirar partido das "novas
tecnologias".
2 º FIM:
(
) E, de facto, consegui convencê-lo! Está um autêntico
Net-Man! Agora até quer ser um service provider e fazer concorrência à
Telepac!!
3º FIM:
(
) Há uns dias passei por lá. Estava tudo fechado.
Encostei o nariz ao vidro da porta. Ninguém. Apenas uma gigantesca língua de papel a
sair, ondulante e viva, duma máquina que emitia um prriii-prriii que se ouvia na rua.
Pendurada na porta, escrita com mão trémula, uma tabuleta:
= Liquidação Total por Mudança de Ramo =
Lá se fora
o ramo de Oliveira!
Esta crónica foi publicada no
«Expresso», suplemento «XXI», em 14 Dez 96 |