Trabalho
por uma boa causa
Estes voluntários têm a sua profissão. Mas a falta de tempo não lhes serve
de desculpa para não darem a mão a quem precisa. Em comum têm a vontade de ajudar. E
garantem que eles próprios também lucram com isso
Por Sandrine Lage
Embora
nos dias que correm todos reconheçam que não há tempo para nada e que a maioria das
nossas preocupações se centra em adquirir um carro melhor ou mais uma assoalhada
respondendo a estímulos próprios da sociedade de consumo , ainda existem pessoas
que se distinguem. Pessoas que perceberam a importância de sustentar valores em vias de
extinção. O caminho que têm em comum é um só: o do voluntariado.
Em Portugal, a primeira instituição a fomentar a assistência aos mais
desfavorecidos nasceu do voluntariado e conta já com cinco séculos de existência.
Embora Maria do Carmo Romão, provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML),
considere os voluntários como «peças importantíssimas no trabalho social», a sua
colaboração deixou de ser suficiente. «Não era possível exigir mais tempo às
pessoas», justifica.
Além disso, o trabalho social é de uma complexidade cada vez maior, o que implica
quadros especializados Foi neste contexto que, no ano passado, a SCML criou um núcleo
enquadrador que faz o recrutamento de voluntários, orienta a sua formação e os coloca
nas áreas da sua preferência. «Foi um passo extremamente importante que demos, porque,
estabelecendo uma organização, é mais fácil evoluir e sedimentar as coisas», afirma a
provedora, visivelmente satisfeita por reunir mais de 160 voluntários entre os
quais conta com economistas, advogados, professores e médicos e por ter uma lista
de 200 candidatos na manga. Voluntários que ajudam duplamente: aliviando o encargo da
instituição e oferecendo a sua companhia às crianças e idosos.
O caso exemplar da Roche
Para além da contribuição a nível pessoal, também as empresas podem ajudar. Em
virtude das muitas solicitações que recebem, oriundas de instituições de apoio social,
o mais comum é contribuírem, pontualmente, com apoios monetários.
Na farmacêutica Roche houve o desejo de ir mais longe. Da secretária ao director-geral,
35 empregados são dispensados no seu horário de trabalho para fazerem voluntariado.
Todas as semanas, um grupo de quatro funcionários, independentemente da sua posição
hierárquica, serve refeições ou distribui roupa nos centros Porta Amiga, que a Ajuda
Médica Internacional (AMI) tem em Cascais e nas Olaias. «Quisemos não só passar o
cheque ou oferecer medicamentos, o que seria relativamente fácil para nós, mas também
envolver as pessoas numa acção a longo prazo», explica João Frias Pereira, assessor de
comunicação da farmacêutica.
Esta iniciativa com cariz sistemático só foi possível devido à «sensibilidade» do
director-geral para estes problemas, uma vez que implicou reestruturações a nível de
serviço, organização e, claro, vontade por parte dos funcionários. De facto, o
responsável por esta iniciativa é George Gemayel, de 39 anos, director-
-geral da Roche. «Dar 2000$00 à igreja é fácil. Complicado é pensar: vou
esforçar-me, todas as semanas, para ajudar, e isto requer compromisso.» Foi com este
espírito que começou o projecto da Roche. Inicialmente as pessoas disseram: «Eu
gostaria de ajudar, mas não tenho tempo, trabalho o dia todo, à noite tenho família, ao
fim-de-semana não posso, etc.» A solução foi procurar uma instituição com a qual a
Roche pudesse trabalhar, a AMI, e, a partir daí, dar oportunidade às pessoas de fazer
voluntariado. E a empresa não fica prejudicada? «As pessoas estão satisfeitas, sentem
que estão a ajudar, e nunca ouvi dizer que deixaram de fazer o seu trabalho», avalia
George Gemayel. É bom para a companhia, porque, dando um contributo à sociedade,
desenvolve-se também o lado humano das pessoas. «Temos consciência de que é uma gota
no oceano, mas não temos a pretensão de dizer que estamos a mudar o mundo», afirma, de
forma humilde.
A esta iniciativa não é alheio o facto de George Gemayel ter trabalhado nos Estados
Unidos, onde 50% da população está envolvida neste tipo de trabalho sem remuneração.
«Na Holanda, na Bélgica e nos Estados Unidos, este tipo de iniciativas é comum»,
explica Ana Martins, coordenadora da AMI. São muitas as empresas que oferecem horas do
seu funcionamento normal para quem deseje fazer voluntariado em instituições de
solidariedade ou sem fins lucrativos. «Se uma companhia contribuir monetariamente para
estas instituições ou tiver funcionários que dediquem parte do seu tempo a fazer
voluntariado, automaticamente, os impostos diminuem», refere Maria do Carmo Romão,
confessando o seu desejo de que, em Portugal, o trabalho de voluntariado fosse uma missão
de cidadania, tal como acontece nos Estados Unidos. «É outra mentalidade», afirma o
director-geral da Roche, em tom de desilusão.
Dar e receber
O libanês George Gemayel começou a fazer voluntariado com apenas 7 anos, na paróquia da
sua igreja. Aos 15 anos, durante a Guerra do Líbano, já era responsável por um centro
que acolhia perto de seis mil famílias. Originário de uma família abastada, mas sem ser
rica, nunca sentiu a miséria na pele. Mas foi ao ver pessoas necessitadas que percebeu
que estava ao seu alcance fazer algo para alterar a situação. «Não podia viver num
país completamente dilacerado sem contribuir», explica. «Se não damos nada e estamos
sempre a receber, desenvolvemos o nosso egoísmo, o egocentrismo, e consideramos que nunca
temos o suficiente.»
Também Artur Araújo, de 40 anos, director de comunicação do Instituto Marquês Vale
Flor, voluntário dos Leigos para o Desenvolvimento, sentiu desde cedo a recompensa que é
poder ajudar quem precisa. Desde os 14 anos que faz voluntariado. Em 1990, então
jornalista do Semanário, partiu para São Tomé e Príncipe para, durante dois anos,
fazer voluntariado. Enquanto trabalhava como jornalista na rádio e televisão
de São Tomé, dava a sua ajuda, ensinando História. Desde o seu regresso, em 1992,
colabora com os Leigos para o Desenvolvimento na formação e selecção de voluntários
que se preparam para partir para África, sempre em simultâneo com a sua actividade
profissional. «É uma questão de sensibilidade à realidade que está em nosso redor.
Desde muito cedo me apercebi de outras realidades: a dos excluídos, dos desfavorecidos e
dos pobres», justifica Artur Araújo. «Quem se disponibiliza para ajudar os outros tem
outra percepção da realidade, horizontes muito mais alargados», diz, sublinhando que, a
longo prazo, a tendência das empresas será de «preferir pessoas que não sejam
esquartejadas, com uma visão corporativista da empresa». Ele aconselha os jovens a
fazerem voluntariado antes de entrar no mundo do trabalho.
Com Gabriela Rodrigues, de 41 anos, médica de medicina interna no Hospital S. Francisco
Xavier, a motivação surgiu quando conheceu um doente que estava internado no Hospital
Egas Moniz e este lhe falou no projecto da Abraço. Daí a ser convidada para ser sócia
fundadora da associação foi um pequeno passo. De há 10 anos para cá, faz uma consulta
de infecciologia, embora não seja especializada nesta área. «Para mim é muito
gratificante», diz, em jeito de balanço. Para a Abraço é uma forma, explica, «de dar
um contributo e de a associação ter uma referência no hospital, de modo a poder escoar
os doentes».
Para além das consultas, uma vez por semana, à tarde, Gabriela Rodrigues continua a sua
«missão» em escolas e outras organizações. «É importante haver pessoas
diferenciadas a conversar com os jovens», afirma, com um brilho nos olhos. É que esta
médica reconhece que «há pouca gente disposta a ajudar» e confessa: «Embora a
discriminação já não seja tanta, continua a haver uma mentalidade fechada em relação
a estes doentes.»
Maria Eugénia Saraiva, de 36 anos, relações públicas, foi voluntária e hoje é
funcionária da Liga Portuguesa contra a Sida. Também ela estava empenhada em concretizar
actividades relacionadas com a prevenção da sida. Quando teve o seu primeiro filho,
decidiu não ficar parada em casa. Preferiu trabalhar, ficar com saudades dele, «de forma
a não o mimar demasiado». Nesse momento sentiu que tinha algo para dar a uma
instituição de solidariedade. Identificou-se com a Liga Portuguesa contra a Sida. «O
voluntariado é uma peça fundamental neste projecto», diz. Como a sua área de
formação era relações públicas, optou pela angariação de fundos, área em que tinha
facilidade de actuação.
Começou por dedicar parte do seu tempo livre, até que decidiu abandonar a sua actividade
comercial, ao fim de 16 anos, para se dedicar a tempo inteiro a esta associação. Hoje
está a tirar o curso de Psicologia, para tentar compreender melhor o mundo que a rodeia.
Tempo para uma causa
Há muito tempo que Maria Teresa Nogueira, de 54 anos, professora na Faculdade de
Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, acalentava o interesse em tornar-se
activista em prol dos direitos humanos. Após acabar o doutoramento, em 1987, decidiu-se.
Desde então ocupa os seus tempos livres trabalhando em prol da Amnistia Internacional,
organização que escolheu porque trabalha para pessoas que nunca chega a conhecer e tem
um campo de actuação que cobre todos os países do mundo. «Cada pessoa pode escolher o
seu campo de acção», explica. «A minha escolha foi a China, porque eu sempre tive
muito interesse por este país.»
Embora as organizações sem fins lucrativos necessitadas de trabalho não remunerado
agradeçam mesmo o pouco tempo que os voluntários possam oferecer, há que garantir uma
certa responsabilização. Veja-se o caso da Amnistia
Internacional, por exemplo. Para ajudar a sua causa basta integrar uma rede de acções
urgentes, existentes a nível internacional, que se destinam a fazer pressão, mediante o
envio de milhares de cartas oriundas de todo o mundo, intercedendo junto dos governos por
pessoas que estão a ser vítimas de violações dos seus direitos humanos. «Cada um dá
o que pode, é certo. Mas, a partir do momento em que o voluntário se compromete com uma
acção, tem de a levar a cabo, senão os prisioneiros são duplamente esquecidos: pelo
governo e pelas pessoas», alerta Maria Teresa Nogueira, que dirigiu em Portugal a
campanha que levou à instituição do tribunal criminal internacional.
Os seus afazeres pessoais também não serviram de desculpa a Gabriela Rodrigues para não
ajudar os outros. Mesmo sendo mãe de família «é possível arranjar tempo para dedicar
a uma boa causa», garante a médica. «Sou daquelas mães que, quando está, está. E
aquilo que me engrandece lá fora, obviamente, transporto-o para casa.» Acredita que,
apesar de retirar oito horas semanais de convívio aos seus filhos, a sua experiência com
comunidades discriminadas, como homossexuais ou toxicodependentes, a ajuda na educação
dos jovens que tem em casa e leva-a a ter uma atitude mais tolerante e, ao mesmo tempo,
participativa. «Qualquer deles fala de sida, de droga e de homossexualidade com
tolerância e com um conhecimento que eu, muitas vezes, não vejo nos jovens da idade
deles», afirma, orgulhosa.
Para quem já tenha uma actividade profissional, fica o exemplo destas pessoas e o desafio
de experimentar dedicar um pouco do seu tempo a quem precisa. Mesmo que seja pouco, pode
fazer a diferença. Vale a pena, ou não? |