VIDA EXECUTIVA

Comportamento

Voltar ao Sumário

O PODER DA ESCRITA
Escreva o que eu digo. Há três regras de ouro: criatividade é fulcral; quanto mais curto, melhor; e nunca por palavras caras. Quando meter mãos à obra, não esqueça estes princípios
Por Patricia H. Westheimer
Há uma forma masculina e uma feminina de escrever. Mais directa ou mais emocional. Nos negócios, use uma combinação das duas. Verá que os seus textos ganham outra força. Palavra de executiva.
E
screver bem não é uma questão de habilitações literárias. Há lacunas que provêm mais da educação da mulher e da sua forma tradicional de expressão. A escrita masculina tem também as suas lacunas. Quando a mulher tenta imitar o homem na escrita, perde o seu poder. Perde-se o elemento pessoal, que pode ser a sua força face ao estilo masculino, mais impessoal. É que a principal diferença entre a escrita masculina e a feminina é um estilo mais directo, no primeiro caso, e mais emocional, no segundo. O ideal é um equilíbrio entre os dois.
Uma executiva precisa de se fazer entender, transmitir factos que levem a acções determinadas. É desta escrita, com um objectivo específico, que se deve cuidar. Alguns princípios básicos podem ajudar a fazer uma auto-análise, enquanto as dicas mais concretas lhe permitirão uma aplicação prática imediata.

Liberte-se de preconceitos. São geralmente três. O primeiro é de que há apenas uma forma de escrever relatórios; o segundo, quanto maior a carta, melhor; o terceiro, quanto mais compridas as palavras, mais esperta quem as escreve. Adopte, desde já, três princípios de ouro: a criatividade é a chave; quanto mais curto, melhor; e nunca por palavras caras.
A criatividade significa que há várias formas de tratar um assunto e que deve confiar na sua abordagem pessoal do tema, deixando fluir as palavras.
O método Speakwrite, que se baseia na simplicidade do discurso, funcionou nos Estados Unidos para milhares de executivas. Pense naquilo que diria numa determinada situação, mantendo sempre o seu público ou destinatário em mente. Escreva as principais ideias no papel e construa frases simples, como se estabelecesse um diálogo. Não se esqueça de que a timidez e a hesitação retiram impacte ao discurso, tal como o excesso de pormenores ou desculpas. Por isso, ponha de parte, inicialmente, o facto de precisar de escrever algo. E leia sempre alto tudo aquilo que escrever.

Descubra as diferenças

Os homens...
  • Falam de desporto, dinheiro, factos, negócios, acontecimentos.
  • Dão ordens para obter o que querem.
  • Usam e respondem a acções mais do que a palavras na comunicação.
  • Comunicam para persuadir, contestar, controlar ou deslumbrar.
  • Usam uma linguagem orientada para factos e acções.
  • Preferem falar do que ouvir.
  • Usam pausas na conversa para realçar algo.
    Falam muito em monólogo.
  • Expressam emoções indirectamente.
  • Interrompem mais as conversas.
  • Falam de forma autoritária, seja qual for o assunto.
As mulheres...
  • Falam de sentimentos, relacionamentos, pessoas e estados psicológicos.
  • Pedem as coisas.
  • Apoiam-se e respondem a palavras ao comunicarem.
  • Comunicam para partilhar, informar, apoiar ou agradar.
  • Usam uma linguagem emocional e de avaliação.
  • Preferem ouvir e partilhar as conversas.
  • Usam muletas como «realmente», «fantástico» e «tremendo».
  • Usam vários tons para transmitir emoção e significado.
  • Expressam emoções directamente.
  • São mais interrompidas.
  • Falam hesitantes, por tentativas.

As expressões já feitas ou muito usuais perdem a sua força com uma utilização excessiva. Muitos clichés retiram-lhe poder de argumentação. Se precisar de uma resposta rápida, não se limite a escrever, no final: «Na expectativa de uma resposta breve...» Seja directa:
«A resposta deverá chegar até dia...» Expressões como «a razão pela qual escrevi...» são facilmente substituídas por «porque». E «no que respeita a» transforma-se, num discurso directo, num simples «sobre...».
Grande parte dos advérbios são desnecessários quando os verbos que usa são poderosos. Uma frase como: «Preciso urgentemente de acabar o trabalho rapidamente, para que o patrão fique muito contente», ganha outro poder escrita sem os advérbios: «Preciso de acabar o trabalho, para que o patrão fique contente.»
Detecte expressões ou frases que retiram poder à sua escrita.Tom de deferência. «Espero que compreenda...», «Peço desculpa por responder apenas agora...».
Carácter vago. «Há algum tempo pedimos-lhe para nos informar da situação de forma regular...»
Hesitações. «É minha opinião...», «Acredito que...».
Excesso de palavreado. «Tendo em conta a sua carta de 1 de Janeiro, venho por este meio...»
Palavras pesadas. «Na eventualidade de surgir alguma dúvida ou comentário sobre este assunto...»
Indirectas. «Parece óbvio que uma con
ta gerida desta forma não é favorável
nem para si nem para o banco...»
Repetições e redundância. Repetir palavras ou a mesma ideia várias vezes com palavras diferentes: «Confia sempre na sua primeira sensação inicial?»
Excesso de explicações. Subestima, insulta e aborrece o leitor: «Peço encarecidamente uma oportunidade de dizer a alguém da sua empresa como é importante este programa e como são passivas as acções tomadas até hoje.»
Pontuação em excesso. As vírgulas distraem e só mostram que a frase está demasiado comprida.
Utilização da voz passiva. «É do conhecimento geral que...»

Escreva os seus objectivos como se o fizesse na sua agenda. «Escrever para a Tudor para que transfiram as contas dos empregados», por exemplo, é um ponto de partida. Uma das técnicas mais simples consiste em fazer uma lista de pontos importantes, que organizará de acordo com o princípio: «Uma ideia por parágrafo ou frase.»
Depois aplique as regras essenciais que permitem obter resultados concretos: pedir antes de justificar o pedido, responder antes de explicar um assunto, apresentar as conclusões antes da argumentação, oferecer a síntese antes da explicação em pormenor.
O resultado que espera alcançar ditará a sua escrita: aprovação de um plano, obtenção de fundos para um projecto, resolução de um problema, como uma queixa. O destinatário tem, por vezes, dificuldade em perceber o que pretende. Em vez de usar: «No seguimento das nossas conversas telefónicas, venho por este meio esclarecer o objectivo das contas poupança-reforma», é preferível: «As suas chamadas revelam que as diversas regras associadas à sua conta poupança--reforma não estão claras.» O fundamento do Speakwrite está em passar claramente uma mensagem, como se estivesse numa conversa. Escrever no papel é apenas uma questão de organizar ideias e planear as tarefas para chegar onde se pretende. Agora... mãos à obra!

O teste da caneta

Qual é o poder da sua escrita? Pegue nalguns documentos ou cartas que tenha escrito recentemente e atribua-lhes uma pontuação de acordo com este sistema.
Se os pontos negativos forem superiores aos positivos, precisa de pôr o seu estilo de escrita em dia.

Retire um ponto para cada uma das seguintes ocorrências

  • Utilização de palavras e expressões como «Por favor...», «Lamento...»,
  • «Peço desculpa por...», «Se puder...», «Espero que possamos...».
  • Utilização do conjuntivo em palavras como «poderia...», «se...», gostaria...».
  • Utilização de expressões e palavras autodepreciativas, como, «Espero que não pense que eu...», «Se não lhe for muito difícil...» (retiram-lhe poder pessoal).
  • Não pensar a quem se destina a mensagem, usando a primeira pessoa mais de três vezes em cada parágrafo.
  • Usar construções de frases que atrasam o ponto principal até ao fim da carta, definição pouco clara do objectivo da mensagem, cobrir tópicos a mais ou associar tópicos sem relação e não usar transições entre parágrafos.
  • Usar uma saudação que soa falso ou pouco profissional: tudo o que foge do «Atentamente».
  • Apresentar mais problemas do que soluções, quando coloca mais questões do que aquelas a que respondeu.
  • Usar jargão, palavra apenas corrente no seu ramo (log-in, voucher...).

Adicione um ponto por cada uma das seguintes situações

  • Escrita concisa e breve: se a carta tem uma página ou menos.
  • Utilização de ideias orientadas para a acção, como, «Vamos encontrar-nos e discutir o assunto...», «Obrigado pelo...», «Encontrará junto o....», «Vamos desenvolver...».
  • Utilização de palavras orientadas para a acção, como encontrar, decidir, considerar, motivar, autorizar, agir, responder, definir, liderar, obter, reduzir, consultar, construir, recomendar, estudar, usar.
  • Iniciar cada parágrafo com uma palavra diferente.
  • Parar quando terminou, resistindo à tentação de acrescentar formalidades de rotina, como «Telefone, se tiver dúvidas...» ou «Tenha um bom dia...».

Condensado de Power Writing for Executive Women, por Patricia H. Westheimer. © 1989 by Scott, Foresman and Company. Publicado com a permissão da autora. Adaptado por Géraldine Correia.
Patricia Westheimer é directora da In Business, uma empresa sedeada em Portugal que treina executivos em effective business comunication skills. É autora de mais seis livros sobre escrita de negócios, incluindo The Perfect Memo e The Executive Style Book. Vive em Cascais e pode ser contactada pelo seguinte endereço: patwestamail.telepac.pt, ou pelo telefone/fax 01-486 22 66.

Voltar ao Sumário