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Cidadã do mundo
Teresa Presas é aventureira e impaciente. Mas a Tetra Pak cativou-a com novos desafios durante quase duas décadas. Hoje é responsável pelas relações internacionais para a Europa e África. Em Bruxelas sente-se em casa

Por Marta Reis

Faz amigos com facilidade e fala fluentemente cinco línguas. Filha de mãe espanhola e pai argentino, nasceu em Portugal, a quarta de cinco irmãos. «Em Portugal éramos os espanhóis, em Espanha os portugueses.» Talvez por isso Teresa Presas não tivesse criado raízes profundas. «Sentia-me um pouco diferente», confessa. A independência, que conquistou desde cedo, não a afastou da família. «Divertimo-nos imenso quando nos encontramos todos.» Talvez fosse essa independência, aliada a uma abertura de espírito, herança da sua costela espanhola, que a fez arriscar e viajar.
Teresa Presas é responsável pelas relações internacionais da Tetra Pak na Europa e África e, desde Junho deste ano, directora do departamento dos assuntos ambientais da multinacional sueca de embalagem. Tarefas que acumula com a vice-presidência do Fórum Consultivo Europeu para o Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, organismo designado pela Comissão Europeia. Vive em Bruxelas, mas a maior parte do tempo está fora. «No ano passado estive apenas 52 dias no escritório», sublinha Teresa Presas, que adora viajar. «O que não é o mesmo do que andar de avião, isso odeio.» Com poucos tempos livres, tenta marcar as suas reuniões de trabalho em Lisboa, onde vem pelo menos seis vezes por ano, para a sexta ou segunda-feira, para poder jantar com os irmãos ou os amigos.

Altos voos na Tetra Pak
Teresa Presas entrou para a Tetra Pak em 1982, através de Vera Nobre da Costa, que não hesitou em recomendar a amiga como a pessoa indicada para directora de comunicação. «É uma mulher extremamente inteligente, curiosa, e soube fazer carreira numa área complicada», define a presidente da Young&Rubican. Teresa deslocou-se à Suécia para, numa conversa informal durante um almoço na sede, ser entrevistada pelos administradores. A sua viagem foi recheada de peripécias. Fez escala em Amesterdão e aproveitou para conhecer a cidade durante a noite. Mas, apesar da noite em claro, conseguiu impressionar os responsáveis. No avião, durante a viagem de regresso, propuseram-lhe o cargo.
Foi o sueco Stephan Kramer, então director-geral da Tetra Pak Portugal, que apostou na sua contratação. «A Teresa escrevia muito bem e eu precisava de alguém capaz de pôr as minhas ideias no papel», explica hoje o sócio gerente da AIS — Ar Interior Saudável. Kramer ficou impressionado com a desenvoltura de Teresa. «Conhecia toda a gente e era uma “fazedora” extraordinária. A Teresa tem um motor interior que puxa tudo para todo o lado.» Foi ela quem se empenhou em promover as virtudes ambientais da embalagem fabricada pela empresa. «Os ecologistas atacavam fortemente a embalagem. A Teresa estudou a fundo essa problemática e isso ajudou muito a Tetra Pak, não só em Portugal como no resto da Europa», conta Stephan Kramer.
Desde o início começou a viajar. Era vista como uma representante da Europa do Sul. «Isso foi muito importante para a minha carreira», analisa hoje Teresa.
Nove anos decorridos, precisamente quando estava a negociar a sua saída para uma empresa de relações públicas, em Paris, a Tetra Pak propõe-lhe o cargo de directora de relações públicas para a Europa, em Lausanne, na Suíça, onde, desde 1991, se situava a sede da empresa. Aceitou de imediato. No seu lugar em Lisboa ficou Beatriz Águas, actualmente directora de comunicação e relações institucionais da Nutrinvest. Foi uma dura sucessão. «Fui confrontada com opiniões muito positivas acerca de Teresa Presas, o que me intimidava um pouco.»
Teresa parecia fadada para o cargo. Tinha bons conhecimentos, especialmente nas instituições comunitárias, abertura de espírito e a disponibilidade e independência que sempre cultivou. «Penso que pesou o facto de ser portuguesa», diz. «Nós não queremos impor as nossas regras.» É disso que gosta, desses desafios de quem nunca quis impor um modelo, mas sim adaptá-lo às circunstâncias. «Gosto muito de mobilizar pessoas, tanto que às vezes até sou um pouco impaciente», explica.
A impaciência, enquanto virtude, leva--a, após seis anos em Lausanne, a pensar sair da Tetra Pak. Mas a empresa convida-a a ir para Bruxelas, como responsável pela direcção das relações da Tetra Pak na Europa e África. A proposta era tentadora — passava a estar no centro dos acontecimentos. Outros convites aliciantes teve, mas os desafios propostos pela Tetra Pak justificaram a sua fidelidade durante 17 anos. Pelo menos até agora, porque está sempre pronta para novas experiências.

Uma jovem independente
Com apenas 17 anos, partiu para Denver, nos Estados Unidos, uma cidade onde não conhecia ninguém e ninguém a conhecia. Foi lá que festejou o seu 18.º aniversário. Um dos seus programas favoritos era comprar bebidas alcoólicas sem mostrar o bilhete de identidade. Estava habituada ao aperitivo antes do jantar e não compreendia as limitações da lei norte-americana. Participou em todas as actividades escolares, foi cheer leader, partiu o nariz a fazer ski — «de que não gosto» — e ensinava inglês a emigrantes sul-americanos.
Esta viagem marcou para sempre a sua vida. No final do ano, quando regressa a Portugal, depois de ter cumprido o programa AFS, de intercâmbio de estudantes, sentiu dificuldade em se adaptar. «As pessoas vivem demasiado fechadas em Portugal, em círculos muito pequenos. Quando vim dos Estados Unidos comecei a ter grupos diferentes de amigos. Isso foi o que trouxe de mais importante.»
Se a sua ideia era estudar História, com a experiência nos Estados Unidos ganhou a certeza de que o que a estimulava eram as relações com as pessoas. Acabou por se licenciar em Psicologia. Foi sempre óptima aluna, a melhor dos irmãos, «mas estudava imenso», diz, rindo.
Estava no segundo ano do curso quando decidiu trabalhar, queria ser independente. «A Lintas não era um emprego a tempo inteiro, mas em certas ocasiões havia muito trabalho: explorar conceitos, fazer relatórios...», recorda. Comprou o seu primeiro carro, um Fiat 126, quando tinha 19 anos. O pai avalizou as letras, Teresa trabalhava para as pagar.
Depois do 25 de Abril a publicidade baixou muito e Teresa ficou sem trabalho. Uma paixão por um francês leva-a a Roma e a Paris. Cinco anos depois regressa a Portugal. Traz consigo o filho, Henrique, de três anos, hoje com 22, o seu orgulho máximo. «Já tem uma empresa de cinema só dele», conta. O que foi fazer? Trabalhar, «claro!», para o Instituto de Cooperação Económica Externa, até que entrou no departamento de publicidade do jornal Expresso. Alexandre Cordeiro, então director do departamento, actualmente director da Agência Europeia de Imprensa (AEI), descreve-a da seguinte forma: «Era mais do que uma assistente, interessada, comunicativa, tinha uma grande vitalidade e desenrascava tudo. Pressenti que estava fadada para uma carreira deste tipo. A nossa relação foi, durante os três anos que esteve no Expresso, excelente, apesar de ser cunhada do patrão (Pinto Balsemão).»
Da publicidade transitou para a redacção. Da reportagem ao internacional, fez um pouco de tudo. Por que deixou o Expresso? São águas passadas. Mas o episódio é público. Durante um almoço em casa dos pais de Teresa, aquando da visita de Calvo Sotello, homólogo do então primeiro-ministro Pinto Balsemão, Teresa Presas ouviu uma frase controversa que publicou. A estagiária, quase provocando um incidente diplomático, demitiu-se prontamente.
Ingressa no Instituto Português de Cinema como responsável pela área da imprensa. «Era completamente diferente. Conheci muita gente e fiz amizades.» O lugar, porém, não aqueceu, porque surgiu a proposta da Tetra Pak.

Um tipo especial de talento
Ecléctica nas leituras, gosta de biografias e levou uma história da Europa para uma semana de férias em Malta. O seu espectáculo preferido é o ballet moderno. Em Bruxelas parece ter encontrado o lugar ideal para viver. «Há muitas pessoas com o mesmo tipo de vida que eu, ao contrário da Suíça.» É citadina, mas gostava de ter uma casa no campo para os fins-de-semana. Em Portugal, o ideal seria ao pé da praia. «Ainda hei-de ter.»
Teresa é excelente relações públicas, mas deixa escapar o que sente. Confessa que toda a vida tentou ser mais racional do que impulsiva, mas que possui ambas as características. Só tem pena de não ter desenvolvido um talento para a música, a pintura ou a escrita. «Só sei escrever sobre coisas concretas.» Dito assim, até parece falsa modéstia, para uma pessoa que, para chegar até onde chegou, teve, com certeza, de utilizar muita arte e engenho. Ou a isso já não se chama talento?

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