Management Voltar

JACK NILLES,
em defesa do teletrabalho

O maior doutrinador do teletrabalho deu o exemplo. Fez o discurso de encerramento de um seminário em Portugal... sem sair de casa. Nesta videoconferência defendeu que o teletrabalho irá explodir nas próximas duas décadas. Saiba a que se deve esse optimismo

Por: Ruben Eiras
Jack Nilles voltou a apregoar as virtudes do teletrabalho, através de uma videoconferência que encerrou o seminário Teletrabalho: Trabalhar Online, realizado no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) no dia 6 de Maio. Melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, aumentar a qualidade e a eficiência das empresas, criar riqueza e emprego para os deficientes e os idosos são as boas novas anunciadas pelo guru.

As forças da mudança

De acordo com Jack Nilles, existem quatro factores que estão a operar mudanças irreversíveis à escala planetária, as quais, inevitavelmente, irão conduzir à adopção do teletrabalho.
A primeira grande força motriz é a mudança na composição da força de trabalho. Num futuro próximo, os info-trabalhadores (ou trabalhadores do conhecimento) irão constituir a grande fatia da população activa dos países desenvolvidos. Actualmente, uma percentagem considerável da mão-de-obra destes países encontra-se empregada em actividades relacionadas com a criação, manipulação e transmissão de informação. A título de exemplo, o sector da informação dos Estados Unidos já emprega cerca de 60% da força de trabalho do país. O quadro laboral no Velho Continente é semelhante (excepto a Grécia, onde a indústria ainda é o sector dominante).
Assim, o guru prevê que o boom do teletrabalho despoletará nas próximas duas décadas. Por volta de 2020, o potencial de teletrabalhadores atingirá 250 milhões de pessoas em todo o mundo. As zonas de maior crescimento serão as dos países da OCDE e a América Latina — o Brasil em particular. Na visão de Jack Nilles, a maior parte dos teletrabalhadores exercerá a sua actividade em regime complementar. «Estes constituirão cerca de metade da força de trabalho dos países desenvolvidos. Segundo a minha estimativa, só uma proporção relativamente pequena, perto de 10%, é que irão trabalhar a partir de casa a tempo inteiro», prevê.
O desenvolvimento das tecnologias de informação é outra das forças impulsionadoras do teletrabalho. De acordo com a lei de Moore, a capacidade de processamento de informação de um microchip não só duplica de 18 em 18 meses, como o seu custo decresce em cerca de 30% ao ano. A principal consequência é a de que o processamento de grandes quantidades de informação se tornará cada vez mais rápido e barato para as empresas. Este factor, aliado ao desenvolvimento global das telecomunicações, permite que as empresas transmitam mais informação a um custo menor e a uma velocidade maior. Além disso, a venda de computadores pessoais explodiu em todo o planeta (só nos Estados Unidos, venderam-se 30 milhões de PC em 1998). A par desta proliferação mundial de computadores, o número de pessoas ligadas à Internet também não pára de aumentar. Todos estes avanços tecnológicos têm um efeito directo na forma como as pessoas trabalham. O acesso a competências profissionais a nível global a um custo cada vez menor é uma dessas consequências.
As duas forças anteriores são aceleradas pelo aumento da pressão económica e competitiva. Devido à expansão da economia da informação e ao crescimento da população mundial, a competição entre as empresas é cada vez mais impiedosa. Uma firma que geria localmente os seus clientes agora tem de pensar na distribuição a nível regional, nacional e até global. No entanto, a concorrência entre as empresas não se resume apenas a clientes. Também abrange o mercado de recursos humanos, na procura de novas competências profissionais. «Os vencedores numa economia de informação intensiva do próximo século serão os que tiverem habilidade para lidar com as tecnologias de informação e explorá
-las, tanto para o seu bem como para o da comunidade onde vivem», diz Jack Nilles.
Por último, o teletrabalho tem ainda a vantagem de beneficiar o ambiente. O congestionamento de tráfico, em intermináveis filas de trânsito nas grandes cidades, causado pela deslocação diária de pessoas de casa para o trabalho não só eleva a poluição do ar, como é uma enorme perda de produtividade para as empresas. «Então, por que não trazer o trabalho até às pessoas?», argumenta Nilles.

As forças de resistência

O caminho para a explosão do teletrabalho tem, no entanto, obstáculos. O principal é a atitude negativa dos empresários face aos «revolucionários da indústria» que defendem o teletrabalho. «É um assunto sobre o qual me debruço há muitos anos. A consequência desta resistência é a de que os empregados passam a ser avaliados com base nos resultados alcançados a nível da qualidade e do cumprimento de prazos, e não através do número de horas que despendem no local de trabalho», justifica. No entanto, segundo Jack Nilles, há muitos empresários por esse mundo fora que pensam da seguinte maneira: «Se o negócio está de boa saúde, e se trabalhámos sempre assim, por que é que vamos mexer nele? O que ganho em empregar pessoas que não vêm ao escritório ou que trabalham noutras cidades ou países?! Nem pensar nisso!»
Logo, para que este novo conceito seja aceite pelos empregadores, o teletrabalho tem que lhes trazer benefícios económicos evidentes. «Se isso não acontecer, a difusão não se concretiza. Têmo-lo provado através dos nossos estudos nos últimos 25 anos», alerta Jack Nilles. «Estas investigações demonstram que as empresas que tiveram experiências bem sucedidas de teletrabalho saíram muito beneficiadas. Conseguiram desenvolver e manter a qualidade dos recursos humanos, aumentar a produtividade e diminuir os custos operacionais — problemas que afligem qualquer gestor no planeta», diz.
Segundo o orador, isso não é, porém, suficiente para convencê-los das virtudes do teletrabalho. «Eles ainda ficam muito nervosos se os seus colaboradores não estiverem por perto», ironiza Jack Nilles. «No entanto, não há razões para isso. O teletrabalho é uma solução económica. Mais cedo ou mais tarde os gestores vão perceber que o teletrabalho é uma oportunidade e não uma ameaça», acrescenta.
A mesma atitude de resistência também se verifica no seio das organizações sindicais, um fenómeno mais preocupante na Europa do que nos Estados Unidos. A principal razão da atitude negativa da maioria dos dirigentes sindicais europeus prende-se com o facto de estarem mal informados sobre a sua realidade. «Eles consideram o teletrabalho como uma ameaça. Dizem que os trabalhadores vão ser despedidos, que o seu posto de trabalho vai ser eliminado e coisas do género. O teletrabalho não destrói postos de trabalho. Pelo contrário, cria mais oportunidades de emprego», esclarece. O Reino Unido e a Suécia são as duas excepções no panorama europeu. Os sindicatos destes países inquiriram os seus trabalhadores sobre o que pensavam cerca do teletrabalho. Descobriram então que a larga maioria desejava adoptar este novo regime laboral. «Os sindicatos devem procurar saber realmente o que é que os trabalhadores querem e agir em concordância com a sua vontade», sublinha Jack Nilles.
O «complexo do edifício» é outro potencial problema. «Ainda prevalece a ideia de que sem a presença física nas empresas os cargos não têm prestígio. Para a maioria das organizações, a sua afirmação dentro da comunidade passa por terem um edifício identificado com o nome delas. Por isso, continuam a construir grandes e dispendiosos edifícios nos centros das cidades sem haver necessidade de tal», argumenta o pai do teletrabalho.

Como vencer as barreiras

«Para neutralizar a resistência, é preciso que os vários agentes desta mudança desenvolvam uma acção concertada no sentido de encorajar o desenvolvimento do teletrabalho», aconselha Jack Nilles.
Das medidas a tomar salientam-se quatro: esclarecer os empregadores das vantagens deste método, minimizar os custos das telecomunicações — para que seja mais barato trabalhar em casa do que se nos deslocarmos diariamente para o trabalho —, determinar e identificar os impactes ambientais resultantes da utilização do teletrabalho e, por último, desenvolver padrões, regras e infra-estruturas que suportem o trabalho a partir de casa — de modo que a força de trabalho se mantenha coesa, integrada e satisfeita.
Uma outra via é a pressão regulamentar por parte do Estado. Por exemplo, no Sul da Califórnia, criou-se uma lei para a melhoria da qualidade do ambiente que obriga os empregadores a reduzir o número de empregados que se deslocam diariamente de casa para o trabalho de automóvel. Uma maneira de o conseguir é justamente pelo teletrabalho. Se não cumprirem a lei, as empresas são multados em cerca de 4500 contos por dia.
Para Jack Nilles, é um facto consumado que a tendência para a aceitação e uso crescente das tecnologias de informação está a transformar os modelos económicos tradicionais, a diminuir a resistência à mudança e a permitir a difusão global do teletrabalho. «Neste cenário, as organizações percebem que existem implicações globais e locais significativas através da utilização do teletrabalho nas suas actividades económicas», afirma Jack Nilles.


O que também pode ler sobre este tema noutras edições da Executive Digest: «Prós e contras do teletrabalho» (n.º 24, Outubro de 1996); «As previsões de Jack Nilles» (n.º 26, Dezembro de 1996); «O elogio do teletrabalho» (n.º 31, Maio de 1997). Voltar