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OS HOMENS TAMBÉM CHORAM

POR Consuelo Dieguez

A obrigação de corresponder à imagem de super-herói infalível é fonte de angústia e de doenças por parte do sexo masculino. Saiba como ultrapassar esse estado

Os homens são seguros, decididos, fortes, corajosos. O São frios, auto-suficientes, agressivos. Os homens sustentam a família. Só pensam em sexo. Não têm sentimentos. Não choram. Não há nada de novo nestes conceitos. Ou talvez haja.
O estereótipo do macho existe desde que a Humanidade começou a andar erecta e os nossos ancestrais, do sexo masculino, tiveram de esquecer o medo para disputarem a comida aos outros animais. Com o tempo, foram-se acrescentando outros adjectivos a este leque de caracterizações.
Para as feministas da década de 60, eles eram também «porcos chauvinistas». Mais recentemente, com os novos conceitos introduzidos pela globalização, eles têm de ser ferozmente competitivos no trabalho. Qualquer que seja o ângulo pelo qual se veja a figura masculina, esta continua associada à força, à frieza, à responsabilidade e ao poder.
Acreditou-se, durante muito tempo, que o homem possuía uma grande vantagem apenas por ser a «fortaleza» que costuma aparentar. Estudos psicanalíticos recentes mostram que a obrigação de se enquadrar na imagem de super-herói tem sido a grande fonte de angústia masculina.

Como decifrar os sinais masculinos

O psicólogo americano Alon Gratch tem uma vasta experiência clínica com os homens. Foi terapeuta da Polícia de Nova Iorque. Hoje, dá consultas a executivos. Publicou o livro Se os Homens Falassem...
E aceitou falar connosco.
PERGUNTA. Quais os riscos da propensão masculina de negar as suas fragilidades?
RESPOSTA. Se o homem não pode ser emocionalmente vulnerável, está mais propenso a decisões erradas. Corre riscos sexuais ou faz maus investimentos.
PERGUNTA. Desligar-se do sentimento de medo é uma reacção tipicamente masculina?
RESPOSTA. É uma característica dos heróis e também a causa dos soldados mortos e dos homens de negócios falidos. A distância emocional deixa os homens em situação difícil, não só porque as pessoas ao seu redor se sentem frustradas com a ausência de sentimentos, mas também porque, ao tentarem «adormecer» as próprias emoções, ficam incapazes de sentir empatia. O pai que não sente dor ou fraqueza é o mesmo que grita com o filho para ele parar de chorar. O desprezo pelas dores emocionais alheias também facilita deslizes de conduta. Se cometer «crimes de colarinho-branco», pode acabar por criar uma justificativa de que esse tipo de crimes não faz vítimas.
PERGUNTA. Qual a razão que leva os homens a trocarem a esposa por uma mulher mais jovem?
RESPOSTA.. A mais importante causa é perceberem que atingiram o máximo na carreira e não têm mais sonhos. Mesmo que tenham conseguido sucesso, isso não trouxe o bem-estar que imaginavam que teriam. Começam a sentir o tempo a passar.
PERGUNTA. As mulheres podem entender melhor os homens?
RESPOSTA. O que os homens aparentam não é o seu verdadeiro interior. A carência de emoções, a sua agressividade, o seu egoísmo, são uma forma de defesa. Eu aconselho-as a serem pacientes e a tentarem perceber o que há por detrás dessas defesas. Mais do que tentar mudar os homens, quando elas falarem com eles tentem pensar da mesma forma que eles pensam. Se fizerem isso, eles certamente farão o mesmo e ambos poderão encontrar o equilíbrio.

Sinal dos tempos?
Não se trata de uma crise dos tempos modernos. O fardo da omnipotência é carregado pelos homens através dos séculos — embora o aumento da competitividade tenha agravado o problema. O que há de verdadeiramente novo nesta história é que a angústia do macho tem sido cada vez mais analisada e encarada como uma questão de saúde pública. Surgem inúmeros estudos que alertam para a deterioração psíquica masculina, uma dor que pode ser traduzida em números. O sexo masculino lidera as estatísticas mundiais de suicídio, de mortes violentas, de envolvimento com álcool. De cada quatro dependentes de drogas em todo o mundo, três são homens. Eles vivem, em média, 10 anos menos que as mulheres. E sofrem muito mais de doenças cardiovasculares, crises de hipertensão, acidentes vasculares cerebrais, diabetes e obesidade.
Nos países mais desenvolvidos, a «luz vermelha» acendeu-se mais cedo. Os governos começam a criar centros de ajuda específicos para homens. No Canadá, por exemplo, já existem programas de assistência a jovens do sexo masculino. A medida não poderia ser mais pragmática: pretende evitar gastos futuros com famílias que perdem muito cedo os pais ou maridos. Tudo isto porque se descobriu que, com essa história de terem a obrigação de ser bem-sucedidos, viris e seguros, os homens estão a precisar desesperadamente de ajuda.
A maior dificuldade em compreender este drama é que eles usaram com tanta competência a máscara da auto-sufi-ciência que não conseguem pedir ajuda. As mulheres costumam considerar-se as maiores vítimas do comportamento enigmático masculino. No entanto, traduzir o pedido de ajuda dos homens é difícil, até mesmo para médicos e psicanalistas. O livro Se os Homens Falassem, do psicólogo americano Alon Gratch, é provavelmente um dos mais completos manuais para perceber o que se passa na cabeça desses super-heróis em conflito. O autor diz o seguinte aos leitores: «Os homens são difíceis. À superfície, muitas vezes parecem distantes e insensíveis. Ou vulgares e repulsivos. E quando tentamos conhecê-los, muitas vezes é ainda pior — eles ficam na defensiva e tornam-se inacessíveis.» Esta é apenas uma definição bem-humorada do universo masculino e de como ele é interpretado. Gratch garante que, embora as mulheres os acusem de não falar e de não ouvirem, com um pequeno esforço eles falam, ouvem e entendem.

Dificuldade de lidar com o sofrimento
A realidade é que os homens têm mais dificuldade em admitirem que estão a sofrer, que estão em crise e que precisam de ajuda. Geralmente, quando procuram um analista, é por causa de problemas relacionados com o trabalho. Ser demitido ou «reestruturado», palavra que está na moda, é uma experiência traumática. Também é motivo de angústia a perspectiva de fracassar ou a de não conquistar o sucesso. Esses costumam ser os maiores rastilhos para uma crise. Outros factores que também podem levar os homens ao sofá do psicanalista são a dificuldade de tomar decisões nos negócios e o facto de se sentirem oprimidos pela empresa ou entediados e apáticos frente ao trabalho.
O engraçado é que muitos homens de sucesso procuram um terapeuta para conseguirem lidar com a sensação de incerteza e carência emocional que experimentam ao chegar ao topo da carreira. Alguns admitem que, embora tenham obtido inúmeras vitórias, sentem um enorme vazio, como se nunca mais conseguissem sentir uma integral satisfação. Outros queixam-se do enorme preço que pagaram pelo sucesso. Por último, e não menos importante, muitos procuram a terapia por causa de crises conjugais e problemas sexuais, como impotência, infidelidade e dúvidas quanto à identidade sexual. Nesses casos, alguns envergonham-se tanto dos seus problemas que chegam a levar meses a contar a razão que os levou a consultar um médico.
A grande dificuldade para conseguir compreender o que está por detrás das crises é o medo de parecer frágil e vulnerável. Quando se pergunta a uma mulher no que ela está a pensar, é sempre mais fácil obter uma resposta. Já com os homens a rota é muito mais sinuosa. Talvez a mais profunda dessas características seja a vergonha que advém da máxima «os homens não choram», repetida ao longo dos séculos. Actualmente, já se chegou a um consenso entre psicanalistas: essa tecla martelada desde a infância é a razão mais que óbvia para os homens não se integrarem em diálogos emocionais.
O problema é não perceberem o quanto isso pode ser destrutivo. Nos relacionamentos, eles tendem a projectar sobre a parceira a vergonha do próprio desempenho. Criticam a aparência, a maneira de ela vestir ou falar. É a forma que encontram para se tentarem livrar da sua própria sensação de inferioridade. Já as mulheres, submetidas a esta situação, acabam por se sentir controladas e desvalorizadas. Pior, ficam envergonhadas das suas próprias imperfeições (que talvez até nem existam). Começa aí um jogo de acusações capaz de destruir um relacionamento estável e feliz.

Está tudo bem?
Um especialista do universo masculino, o psiquiatra paulista Luiz Cuschnir, que há 20 anos que se dedica ao estudo da psicologia masculina, considera altamente destrutiva essa vergonha de mostrar os sentimentos, sempre mascarada pelo tradicional «tudo bem». A verdade é que a tortura de ter de mostrar que nada o atinge e que sabe tudo deixa o homem completamente vulnerável. Ao esconder os sentimentos, ainda que inconscientemente, acaba por se sentir um mentiroso ameaçado de ser desmascarado. Em alguns casos, consegue falar ou é forçado a isso pelas circunstâncias da vida. Aí costumam ocorrer grandes reviravoltas. O empresário Soly Kamkhagi é um exemplo dessa realidade. Libanês, imigrado, sempre fez o papel do grande provedor da família. «Não podia ser diferente, faz parte da minha cultura», explica. Em 1999, aos 60 anos, sofreu um grande golpe. A sua empresa têxtil começou a ter problemas e fechou. Pouco tempo depois, Kamkhagi descobriu que tinha um cancro no intestino, resultado dos dois anos de angústia com os problemas financeiros da empresa. O que poderia ser uma tragédia tornou-se numa fonte de aprendizagem. Ao perder a empresa e ao ficar doente, Kamkhagi encontrou um grande conforto na família e nos amigos. Hoje, o cancro está controlado e ele conseguiu reerguer-se financeiramente. Tem um retorno financeiro e de realização pessoal muito maior. A sua avaliação é que todos estes problemas o transformaram numa pessoa melhor. «Aprendi que posso falhar. E não preciso ter medo disso», admite. Está muito mais próximo da família e dos amigos. Tem um novo prazer de viver.
Normalmente, só mesmo duros golpes fazem os homens parar e avaliar a sua vida. Muitos encontram-se num eterno estado de angústia e sofrimento sem saber exactamente o que os aflige. Para os estudiosos do comportamento masculino, essa sensação de vazio está relacionada com o facto de serem muito rígidos na exigência de representarem o papel de fortes e bem-sucedidos. Todas estas exigências, ter sucesso no trabalho e com as mulheres, começam na infância. São educados para terem um bom desempenho no trabalho e na cama.
O resto são consequências. Uma pesquisa feita pelo executivo Elyseu Mardegan Júnior para a tese de MBA, que se transformou no livro Homem 40 Graus, transmite a dimensão real desta situação. Mardegan, que trabalha na área de marketing de uma empresa, conta que, ao fazer as entrevistas com homens, percebeu que a maioria atravessava uma crise de insatisfação não só com o trabalho, mas com a vida. Fez algumas descobertas importantes. Uma delas é que o homem está concentrado no trabalho e ao ser indagado sobre «como vai a vida» a resposta só será positiva caso ele esteja a ser bem-sucedido profissionalmente. De contrário, a infelicidade é total. «Quando se pergunta a uma mulher se ela é feliz, ela pensará na família, nos amigos, na relação afectiva e no trabalho. Ela identifica várias fontes de prazer», conta Mardegan. «Já o homem só pensa no trabalho e no sucesso; não vê o que possui de bom fora desta área.»

O horror pela perda de valores
O que ocorre frequentemente é que, após alcançarem sucesso profissional, e para o manterem, os homens vão-se afastando de elementos essenciais da sua personalidade. Eliminam simples prazeres, encontros afectivos, amizades mais íntimas. Adaptam-se ao que serve para o consumo da sua eficiência profissional. Desempenham o que se espera deles, sem grandes dúvidas, indo muitas vezes contra os seus próprios conceitos éticos. Na vida afectiva, acabam por perder o contacto com a mulher e os filhos. Acostumam-se a uma distância emocional, que não só pode devastar os relacionamentos íntimos mas também a sua vida. Os homens que não sentem medo não são capazes de avaliar o risco da situação. Envolvem-se em negócios desastrosos ou em terríveis acidentes.
Ao tentarem negar os sentimentos, enrolam-se numa teia aflitiva. Um dos maiores tabus é talvez a insegurança. Ela costuma ocultar-se debaixo de um exterior forte e protegido. Algumas vezes o homem quer simplesmente não ter de agir. Mas, ao perceber que está fragilizado, acaba por reagir a esse sentimento assumindo uma posição ainda mais machista. O risco potencia-se quando, ao negar a incerteza e a mortalidade, eles atrasam os tratamentos médicos preventivos. As mulheres, desde a adolescência, estão atentas ao corpo. Os homens, quando procuram um consultório, já estão no limite. O cardiologista João Jorge Leite traça um perfil muito claro desse comportamento. Segundo ele, os homens não vão tanto ao médico quanto as mulheres e são monossilábicos quando precisam de falar de si mesmos. Chegam ao consultório pela mão feminina e resistem ao tratamento. Segundo João Leite, a questão emocional tem um enorme peso nos diagnósticos. «Não se trata apenas de analisar o lado anatómico funcional. Para tratar um paciente preciso saber mais sobre ele. Qual o ambiente em casa e no trabalho e quais os seus conflitos. Arrancar essas confissões é um grande desafio», afirma. O cardiologista acredita que os homens protelam a ida ao médico por terem medo que ele lhes imponha alguma limitação ao modo de vida. Receiam que outro profissional ocupe o seu cargo na empresa. Acabam por sofrer muito mais que aquilo que seria necessário. Dormem mal, engordam, sentem-se cansados. «Isso não tem nada a ver com a idade, mas sim com sedentarismo», explica João Leite.

O medo da meia-idade
Atordoados com os seus medos não admitidos, muitos homens, quando chegam à meia-idade (35 anos), entram em crise. Alguns procuram ajuda. Entendem que precisam de compartilhar as suas dores e angústias antes que seja tarde. Outros procuram uma vida com mais prazer, mudam de emprego e aproximam-se da família e dos amigos. O empresário Roni Argalji, dono de uma fábrica de lingerie, percebeu a tempo que não queria permanecer na roda viva destrutiva em que se encontrava. Por causa do trabalho, ele não deu atenção às duas filhas mais velhas. E iria acontecer o mesmo com o filho mais novo. Decidiu que era hora de mudar. Roni faz terapia: «Se não fizesse, já teria uma úlcera, uma gastrite ou problemas cardíacos.» Continua a trabalhar, mas hoje procura conciliar o trabalho com actividades que lhe dão prazer, e tenta participar mais
no desenvolvimento e acompanhamento do filho.
A maioria dos homens, contudo, não dão a si próprios essa oportunidade. Incapazes de perceberem o que se passa, entram num processo autodestrutivo. Começam a beber, afundam-se cada vez mais no trabalho, destroem o casamento, procuram uma mulher mais nova que lhes dê a sensação de imortalidade. Atiram--se a prazeres fugazes, como gastar fortunas num carro desportivo. Em pouco tempo, esses estímulos deixam de ser novidade e volta a sensação de vazio.
As mulheres também colaboram, de alguma forma, para o aumento dessa ansiedade. Na procura daquilo a que têm direito, exigem um melhor desempenho sexual dos homens. Também fazem uma série de exigências que deixam os parceiros desnorteados, com medo de não conseguirem atender às expectativas. O economista Josef Barat acredita que elas, embora tenham conquistado tantos avanços na área profissional, continuam a exigir dos homens o papel de provedor. Eles, com medo de mulheres poderosas, acabam por exacerbar a ameaça de fracasso. «A sensação é a de que nunca vamos corresponder às expectativas que elas têm a nosso respeito», reclama Barat. «Temos de ser sensíveis, provedores, fortes, românticos, bem-sucedidos e bons no campo sexual. É demasiado!»

Soluções fáceis
Para os estudiosos, só há uma solução para esta crise. Os homens precisam de começar a compreender que se não desempenharem à risca o papel para o qual foram programados não é grave. É necessário entenderem que não precisam ser tão rígidos consigo próprios. Podem dar-se ao luxo de pequenos prazeres, como uma caminhada tranquila, férias em família, um hobby. Não é preciso serem potências sexuais.
Podem aceitar, sem vergonha, as suas fragilidades, que, se reconhecidas, se tornam menos angustiantes. «Ao entrar em contacto com os seus sentimentos, o homem vai perceber que é possível ter uma nova vida, com novos papéis a nível familiar, social e profissional», diz Luiz Cuschnir.
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Condensado de Veja (22 de Agosto de 2001).© 2001 by Editora Abril. Todos os direitos reservados. Adaptado por Catarina Santos.

executivedigest - Setembro 2001

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