Os
números são assustadores. 900 milhões de pessoas, ou seja, cerca
de 15% da população mundial, sofre de uma doença que é já considerada «o mal do
século XXI»: a depressão. Julgada precipitadamente, é frequentemente encarada como uma
fraqueza, mas necessita de tantos cuidados médicos como uma doença cardíaca. Principal
causa da quebra de produtividade profissional, pode, caso não seja tratada de modo
adequado, causar muito sofrimento e, em alguns casos, levar à morte. A OMS (Organização
Mundial de Saúde) estima que, dentro de 20 anos, a depressão salte do 4.º para o 2.º
lugar no ranking das doenças mais dispendiosas só nos Estados Unidos o seu
controlo e tratamento ronda os 10 mil milhões de contos , perdendo apenas para as
doenças cardíacas.
Novo mal dos executivos
A depressão leva os executivos a terem uma relação conturbada com o trabalho. Um
profissional deprimido não consegue desempenhar as suas funções de acordo com as
expectativas da organização. O ambiente altamente competitivo e a pressão constante
actuam como um barril de pólvora para quem tenha uma maior tendência para a depressão.
A qualquer momento pode haver uma explosão detonadora da crise.
«No passado, as empresas tinham uma maior preocupação em manter praticamente inalterado
o seu quadro de funcionários», defende Waldir Bíscaro, psicólogo e consultor de
carreira. «Hoje, o medo de perder o emprego é uma ameaça constante, pois até as
empresas consideradas sólidas como uma rocha estão a quebrar ou a fundir-se com outras.
E esse temor é um dos factores que pode desencadear a crise.» Para piorar a situação,
o indivíduo sente-se incapaz de cumprir as suas metas e objectivos, não se conseguindo
relacionar com os outros colegas. As faltas ao trabalho passam a ser uma constante. Face a
este cenário, a perda de emprego pode apenas ser uma questão de tempo.
O que a depressão não é
Um método eficaz de compreensão do que é a depressão passa exactamente por tentar
definir o que ela não é. Em primeiro lugar, a depressão não é um profundo estado de
tristeza (v. caixa). É normal que qualquer pessoa se sinta triste com a perda de um
familiar próximo ou de um ente querido. Pode até ficar bastante abatida durante algumas
semanas, mas, aos poucos, a sua vida acaba por retomar o seu curso habitual: é capaz de
trabalhar, de cuidar da casa e de enfrentar os problemas do dia-a-dia. O mesmo não se
passa com quem sofre de uma depressão. Neste caso, os doentes simplesmente não encontram
forças para reagir. Por muito que se esforce, uma pessoa deprimida não é capaz de
identificar um único motivo que justifique o seu abatimento.
Em segundo lugar, a depressão tem sido confundida com desânimo, preguiça, stress e mau
humor. Puro engano! Relaciona-se com uma determinada apetência para a depressão que se
encontra em factores genéticos de determinados indivíduos. Deste modo, factores
psicológicos, tais como ansiedade, angústia e medo, são, em boa parte, consequências e
não causas da depressão. O mesmo se passa com a componente social: conflitos familiares,
stress persistente, um despedimento inesperado, discussões com colegas de trabalho ou
até a separação conjugal não iniciam uma depressão, resultam dela.
Embora a medicina tenha registado grandes avanços no campo da pesquisa e do tratamento
desta doença, ainda hoje as dúvidas persistem. Por que é que as mulheres são mais
afectadas do que os homens, numa proporção de 2 para 1? Provavelmente devido à acção
de factores hormonais, mas as certezas não são absolutas. Sabe-se apenas que a principal
causa de uma depressão são as alterações neuroquímicas que ocorrem no cérebro. Os
indivíduos que padecem desta doença apresentam uma redução de neurotransmissores
responsáveis, entre outros factores, pelo humor e pela sensação de bem-estar. Nessa
altura é recomendado o uso de antidepressivos, que tentam exactamente reequilibrar esse
desajuste.
«Prozac» e a ajuda dos amigos
Tidos como pílulas da felicidade, os antidepressivos são recomendados para o tratamento
a todos os níveis da depressão e os seus efeitos terapêuticos são sentidos a curto
prazo, com uma diminuição das dores e do desconforto físico. Apesar disso, um dos
grandes desafios da indústria farmacêutica continua a ser a minimização dos seus
efeitos colaterais. A primeira geração de medicamentos produzia um elevado número de
efeitos colaterais, tais como o aumento de peso, tremores, sonolência, disfunções
sexuais e até problemas cardíacos. A descoberta do Prozac há cerca de 10 anos abriu
caminho a uma nova série de antidepressivos, que não só produzem menos «efeitos
secundários» como podem ser administrados numa única dose diária, contribuindo para
uma maior adesão ao tratamento por parte do doente.
Mas os medicamentos não são suficientes. A família e os amigos têm um papel
fundamental na recuperação do deprimido. O mais importante é a compreensão e
aceitação do facto de que a pessoa se encontra doente. Se ela quer ficar sozinha ou
passar todo o dia na cama, esse desejo deve ser respeitado. Ao dar ao deprimido a
condição de doente, ele sentir-se-á mais confortável e menos culpado. E não duvide
nunca do seu sofrimento ele é real. A compreensão é, por isso mesmo, um dos mais
importantes aliados no combate à depressão e na sua luta para o regresso a uma vida
normal.
O reencontro com velhos amigos e colegas da escola e a reaproximação dos familiares dá
ao doente depressivo o que ele mais anseia e necessita calor humano.
| Depressão não é tristeza |
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| - Usualmente
confundidos, estes dois estados de alma são radicalmente diferentes quer nas suas causas
quer nos seus efeitos. Conheça as diferenças: |
| Depressão |
Tristeza |
| Dificuldade em
identificar os motivo |
Há um motivo
real para o abatimento. |
| Piora com o tempo. |
Melhora com o tempo. |
| Ausência de
predisposição para realizar actividades |
Raramente
interfere nas actividades do dia-a-dia. |
| A mudança dá sensação de
problemas existenciais. |
A mudança é sentida como um
processo natural. |
| Há prejuízo
intelectual. |
O funcionamento
mental é preservado. |
| O paciência isola-se |
O paciente pede ajuda. |
Fonte:
Wagner Gattaz, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo. |
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| ESCOLHA as PALAVRAS CERTAS |
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| Falar com
uma pessoa que sofre de depressão pode ser muito difícil. Para não ferir as suas
susceptibilidades nem provocar o agravamento do estado, é necessário encontrar as
palavras certas. Fique a saber o que pode (e deve) dizer e o que tem que evitar: |
| O que dizer |
O que não dizer |
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| «A vida vai voltar a ter sentido.» |
«Isso é tudo da tua cabeça.» |
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| «O que aconteceu é uma fase que
vais ultapassar.» |
«Tens tudo para ser feliz, por
que é que andas assim?» |
Lamento que estejas a
sofrer. Conta comigo"
«És importante para mim.» |
«Eu pensava que eras
mais forte.»
«Deixa de te lamentares.» |
| «Precisas de descansar e tens
esse direito para poderes tratar-te convenientemente.» |
«Faz mas é uma
viagem.» |
| «A vida vai voltar a ter
sentido.» |
«É tudo culpa tua.» |
| «Sinto que estás a sofrer e
julgo que a ajuda de um médico poderia ser muito útil.» |
«Bem, todas as
pessoas estão mais em baixo de vez em quando.» |
| «O que aconteceu é uma fase
ultrapassável.» |
«Por que não sorris
à vida?» |
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Fonte:
Notícias Maganize, Diário de Notícias. |
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