Saúde

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depressão uma DOENÇA centenária

A depressão é a principal causa da perda de produtividade profissional. É muitas vezes confundida com tristeza, fraqueza e mau humor, mas, ao contrário destes, é uma doença e pode levar à morte.

Por Mauro Silveira

Os números são assustadores. 900 milhões de pessoas, ou seja, cerca de 15% da população mundial, sofre de uma doença que é já considerada «o mal do século XXI»: a depressão. Julgada precipitadamente, é frequentemente encarada como uma fraqueza, mas necessita de tantos cuidados médicos como uma doença cardíaca. Principal causa da quebra de produtividade profissional, pode, caso não seja tratada de modo adequado, causar muito sofrimento e, em alguns casos, levar à morte. A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que, dentro de 20 anos, a depressão salte do 4.º para o 2.º lugar no ranking das doenças mais dispendiosas — só nos Estados Unidos o seu controlo e tratamento ronda os 10 mil milhões de contos —, perdendo apenas para as doenças cardíacas.

Novo mal dos executivos
A depressão leva os executivos a terem uma relação conturbada com o trabalho. Um profissional deprimido não consegue desempenhar as suas funções de acordo com as expectativas da organização. O ambiente altamente competitivo e a pressão constante actuam como um barril de pólvora para quem tenha uma maior tendência para a depressão. A qualquer momento pode haver uma explosão detonadora da crise.
«No passado, as empresas tinham uma maior preocupação em manter praticamente inalterado o seu quadro de funcionários», defende Waldir Bíscaro, psicólogo e consultor de carreira. «Hoje, o medo de perder o emprego é uma ameaça constante, pois até as empresas consideradas sólidas como uma rocha estão a quebrar ou a fundir-se com outras. E esse temor é um dos factores que pode desencadear a crise.» Para piorar a situação, o indivíduo sente-se incapaz de cumprir as suas metas e objectivos, não se conseguindo relacionar com os outros colegas. As faltas ao trabalho passam a ser uma constante. Face a este cenário, a perda de emprego pode apenas ser uma questão de tempo.

O que a depressão não é
Um método eficaz de compreensão do que é a depressão passa exactamente por tentar definir o que ela não é. Em primeiro lugar, a depressão não é um profundo estado de tristeza (v. caixa). É normal que qualquer pessoa se sinta triste com a perda de um familiar próximo ou de um ente querido. Pode até ficar bastante abatida durante algumas semanas, mas, aos poucos, a sua vida acaba por retomar o seu curso habitual: é capaz de trabalhar, de cuidar da casa e de enfrentar os problemas do dia-a-dia. O mesmo não se passa com quem sofre de uma depressão. Neste caso, os doentes simplesmente não encontram forças para reagir. Por muito que se esforce, uma pessoa deprimida não é capaz de identificar um único motivo que justifique o seu abatimento.
Em segundo lugar, a depressão tem sido confundida com desânimo, preguiça, stress e mau humor. Puro engano! Relaciona-se com uma determinada apetência para a depressão que se encontra em factores genéticos de determinados indivíduos. Deste modo, factores psicológicos, tais como ansiedade, angústia e medo, são, em boa parte, consequências e não causas da depressão. O mesmo se passa com a componente social: conflitos familiares, stress persistente, um despedimento inesperado, discussões com colegas de trabalho ou até a separação conjugal não iniciam uma depressão, resultam dela.
Embora a medicina tenha registado grandes avanços no campo da pesquisa e do tratamento desta doença, ainda hoje as dúvidas persistem. Por que é que as mulheres são mais afectadas do que os homens, numa proporção de 2 para 1? Provavelmente devido à acção de factores hormonais, mas as certezas não são absolutas. Sabe-se apenas que a principal causa de uma depressão são as alterações neuroquímicas que ocorrem no cérebro. Os indivíduos que padecem desta doença apresentam uma redução de neurotransmissores responsáveis, entre outros factores, pelo humor e pela sensação de bem-estar. Nessa altura é recomendado o uso de antidepressivos, que tentam exactamente reequilibrar esse desajuste.

«Prozac» e a ajuda dos amigos
Tidos como pílulas da felicidade, os antidepressivos são recomendados para o tratamento a todos os níveis da depressão e os seus efeitos terapêuticos são sentidos a curto prazo, com uma diminuição das dores e do desconforto físico. Apesar disso, um dos grandes desafios da indústria farmacêutica continua a ser a minimização dos seus efeitos colaterais. A primeira geração de medicamentos produzia um elevado número de efeitos colaterais, tais como o aumento de peso, tremores, sonolência, disfunções sexuais e até problemas cardíacos. A descoberta do Prozac há cerca de 10 anos abriu caminho a uma nova série de antidepressivos, que não só produzem menos «efeitos secundários» como podem ser administrados numa única dose diária, contribuindo para uma maior adesão ao tratamento por parte do doente.
Mas os medicamentos não são suficientes. A família e os amigos têm um papel fundamental na recuperação do deprimido. O mais importante é a compreensão e aceitação do facto de que a pessoa se encontra doente. Se ela quer ficar sozinha ou passar todo o dia na cama, esse desejo deve ser respeitado. Ao dar ao deprimido a condição de doente, ele sentir-se-á mais confortável e menos culpado. E não duvide nunca do seu sofrimento — ele é real. A compreensão é, por isso mesmo, um dos mais importantes aliados no combate à depressão e na sua luta para o regresso a uma vida normal.
O reencontro com velhos amigos e colegas da escola e a reaproximação dos familiares dá ao doente depressivo o que ele mais anseia e necessita — calor humano.
Depressão não é tristeza
- Usualmente confundidos, estes dois estados de alma são radicalmente diferentes quer nas suas causas quer nos seus efeitos. Conheça as diferenças:
Depressão Tristeza
Dificuldade em identificar os motivo Há um motivo real para o abatimento.
Piora com o tempo. Melhora com o tempo.
Ausência de predisposição para realizar actividades Raramente interfere nas actividades do dia-a-dia.   
A mudança dá sensação de problemas existenciais.    A mudança é sentida como um processo natural.
Há prejuízo intelectual. O funcionamento mental é preservado.
O paciência isola-se O paciente pede ajuda.

Fonte:   Wagner Gattaz, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

ESCOLHA as PALAVRAS CERTAS
Falar com uma pessoa que sofre de depressão pode ser muito difícil. Para não ferir as suas susceptibilidades nem provocar o agravamento do estado, é necessário encontrar as palavras certas. Fique a saber o que pode (e deve) dizer e o que tem que evitar:
O que dizer O que não dizer
«A vida vai voltar a ter sentido.» «Isso é tudo da tua cabeça.»
«O que aconteceu é uma fase que vais ultapassar.» «Tens tudo para ser feliz, por que é que andas assim?»
“Lamento que estejas a sofrer. Conta comigo"
«És importante para mim.»
«Eu pensava que eras mais forte.»
«Deixa de te lamentares.»
«Precisas de descansar e tens esse direito para poderes tratar-te convenientemente.» «Faz mas é uma viagem.»
«A vida vai voltar a ter sentido.» «É tudo culpa tua.»
«Sinto que estás a sofrer e julgo que a ajuda de um médico poderia ser muito útil.» «Bem, todas as pessoas estão mais em baixo de vez em quando.»
«O que aconteceu é uma fase ultrapassável.» «Por que não sorris à vida?»

Fonte: Notícias Maganize, Diário de Notícias.

Condensado de Você, S. A. (Janeiro de 2001). © 2001 by Editora Abril. Todos os direitos reservados. Adaptado por Sara Fonseca.

executivedigest - Março 2001

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