Por: Philip Kotler, Somkid
T al como as empresas, as nações
podem aplicar o conceito de planeamento estratégico, etapa por etapa, na elaboração das
suas estratégias de desenvolvimento económico. Exige, por parte dos decisores políticos
e económicos, uma compreensão profunda da realidade envolvente e dos seus actores. A
política de desenvolvimento de uma nação não se pode ficar por uma simples reflexão
económica, mas deve, pelo contrário, sintetizar factores económicos, políticos,
sociais e culturais. Esta abordagem aplica-se a qualquer país, seja qual for o seu nível
de desenvolvimento.
As nações deparam com alguns desafios de peso. Problemas de nível de vida,
demográficos e de emprego são questões que devem ser estudadas no contexto da
interdependência crescente das economias, da emergência de blocos económicos, da
importância crescente das multinacionais, da rápida evolução tecnológica e dos
problemas políticos e do ambiente. Nessas condições, uma política nacional de
criação de riqueza cria objectivos económicos (PIB per capita, por exemplo), mas
também sociais (qualidade de vida, justiça, segurança
) e políticos (envolvimento
dos cidadãos).
A criação de riqueza
O desenvolvimento não é uma prioridade apenas económica. Baseia-se na construção
de uma visão nacional, de uma política macroeconómica elaborada a partir da
compreensão dos comportamentos das organizações e dos indivíduos. Envolve a esfera
pública, que representa as condições e incentivos que podem maximizar a criação de
riquezas através de políticas primárias que afectam o investimento, a indústria e o
comércio. Para o sector privado, trata-se de desenvolver a actividade, os produtos e os
mercados. Ambos devem ser coordenados.
A elaboração de uma estratégia nacional depende de alguns dilemas inevitáveis:
crescimento versus redistribuição da riqueza, equilíbrio ou desequilíbrio entre os
sectores de actividade, terapia de choque ou política gradual, alto nível de emprego ou
inflação, propriedade pública contra propriedade privada, grandes empresas versus
microempresas, intervencionismo ou prioridade ao mercado, a favor ou contra o investimento
estrangeiro
São escolhas que devem ser feitas em função das características de
cada Estado, mais do que com base em teorias.
Não existe um modelo único. A Coreia do Sul optou por uma abordagem selectiva, e evoluiu
em poucos anos de uma economia rural para uma economia industrial dinâmica. Após o
primeiro choque petrolífero, o país orientou-se para produções baseadas na
utilização intensiva do trabalho, como a indústria química e os estaleiros navais. Mas
o choque petrolífero de 1979 realçou as fraquezas da estratégia. A Coreia foi forçada
a implementar reestruturações importantes das suas indústrias e lançar uma política
de liberalização. Hong-Kong limitou o intervencionismo e apostou na sua única riqueza
natural, o seu porto. A Polónia optou por uma terapia de choque aplicada a uma economia
marcada pelo comunismo. Em 1989, Solidarnosc lançou uma política tripla de
liberalização da economia, de estabilização macroeconómica e de privatizações, o
que permitiu reduzir a inflação e melhorar as exportações, mas fez derreter o PIB.
Este modelo poderá ser um sucesso se a estabilização macroeconómica se mantiver,
permitindo, a prazo, a entrada na União Europeia.
Uma visão estratégica nacional
Em função da sua própria situação no palco internacional, o país elabora a sua
estratégia, as suas políticas industriais e comerciais em matéria de investimentos.
Segundo os esquemas de Walt Rostow e as teorias de Michael Porter sobre as vantagens
comparativas, podem identificar-se oito grupos de nações no palco internacional. Os
gigantes industriais (Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Japão)
desempenham um papel fundamental na economia mundial e disputam a liderança política,
económica e tecnológica. As estrelas em alta (Coreia do Sul, Taiwan, Hong-Kong,
Singapura, Tailândia, Malásia, Indonésia), caracterizadas por um alto grau de
investimento e uma educação crescente, e economias cada vez mais baseadas no
investimento e/ou na produtividade. Os países da América Latina, em seguida,
distinguem-se por altos níveis tarifários (barreiras alfandegárias, etc.),
endividamento e inflação e apostam na criação de uma potência regional. Os países
muito povoados, como a China e a Índia, estão cada vez mais dependentes do comércio
internacional. Os antigos países comunistas formam um grupo traumatizado pela mudança de
modelo económico. Os industriais de nicho, países pequenos como a Bélgica, Suíça,
Suécia, Países Baixos ou Israel, conseguiram o seu desenvolvimento apesar dos mercados
domésticos limitados. Os produtores de nichos são essencialmente países petrolíferos
que procuram hoje a diversificação. A categoria dos que subsistem consiste sobretudo na
África e Ásia do Sul.
É em função desses grupos e da sua competitividade que um líder deve elaborar a sua
estratégia de competição e de cooperação. Deve também ter consciência das suas
forças e fraquezas. O portfolio de capacidades de uma nação pode ser analisado segundo
cinco categorias: cultura, atitudes e valores; coesão social; factores detidos;
organização industrial; e governo. Não basta avaliar apenas a importância de cada uma,
mas também as possibilidades, a prazo, de substituição e, sobretudo, de sinergias entre
estas. Da mesma forma, devem-se explorar as oportunidades e identificar as ameaças a
tempo.
Durante os anos 80, os países da América Latina passaram de uma economia de
substituição das importações para uma economia virada para as exportações.
Infelizmente, fizeram-no no momento em que a conjuntura internacional já não era
favorável às exportações de produtos acabados. Estes países defrontaram-se
brutalmente com a concorrência feroz dos países asiáticos. Conseguir a coincidência
das oportunidades e ameaças com as capacidades de um país é o fundamento de toda a
elaboração estratégica.
O ajuste às grandes tendências
Uma nação deve lançar uma dinâmica estratégica para atingir os seus objectivos em
função da sua posição inicial. Depois de conceber esta dinâmica, a prática exige
manter o controlo por parte dos que a criaram. Caso contrário, assiste-se frequentemente
a uma perda progressiva da competitividade. É preciso orientar e adaptar esta estratégia
no tempo às mudanças de forças e de tendências globais.
Cinco grandes tendências devem ser consideradas: as interacções crescentes entre
países e regiões, a falta de sincronia crescente dos ciclos económicos, a emergência
contínua de novos actores, o crescimento das indústrias globais e a erosão das margens
de manobra dos governos. O investimento directo do estrangeiro nos países intensifica os
laços entre as economias. Actualmente, a importância dos factores de investigação
& desenvolvimento, de marketing e de capital aumentam, diminuindo de facto a
importância do custo do trabalho, o que ameaça muitas economias em desenvolvimento com
uma oferta de trabalho abundante.
No que respeita à política de incentivos ao investimento, os governos têm três
hipóteses de acção: em termos de produto, ou seja, de atractivo do mercado, em termos
de preço, através de incentivos fiscais e alfandegários, e em termos de marketing. Uma
política que privilegia o investimento estrangeiro deve, a curto prazo, aumentar os
fluxos de capitais. A longo prazo, esses fluxos devem ser orientados para optimizar o
lucro da economia nacional. Políticas de transferências de tecnologias associadas a
políticas de apoio à exportação e investimento no capital humano permitem acumular
transacções económicas com o estrangeiro.
No que respeita à política industrial, uma nação deve identificar os seus ramos
industriais. Estes correspondem a grupos de indústrias com ligações horizontais
(empresas ligadas) e verticais (empresas de apoio, que derivam da actividade central).
Estes ramos têm efeitos de sinergia que emergem da coordenação na rede e geram uma
dinâmica, nomeadamente tecnológica. A gestão do portfolio industrial nacional inclui
três etapas. Em primero lugar, identificar os factores determinantes de desenvolvimento
industrial de uma nação, como o potencial de exportação ou a procura interna, ou a
competitividade. Em seguida, formular uma visão estratégica industrial nacional para
cada sector, definindo uma estratégia de investimento, as fronteiras do mercado e a
concentração de factores. Finalmente, identificar o apoio industrial adequado: estimular
os mecanismos do mercado (reforçando algumas infra-estruturas), privilegiar certas
actividades (a I&D, por exemplo), mas não um sector específico, encorajar certos
planos industriais (como a indústria aeroespacial).
A política comercial de uma nação determina a sua orientação: para o interior ou para
o exterior? Não existem milagres. Para promover a exportação, é preciso considerar a
ligação com as importações. Não é desejável limitá-las se o seu contributo permite
aos exportadores serem competitivos. A mais longo prazo, deve-se encontrar o equilíbrio
certo entre a diversificação das exportações e a especialização. A política de
acesso ao comércio internacional deve considerar igualmente a existência de blocos como
o ASEAN (Association of South East Asean Nations) e os acordos internacionais do GATT, que
colocam o problema do equilíbrio possível entre colaboração e cooperação, por um
lado, e concorrência, por outro.
A harmonização de políticas
De um ponto de vista micro como macroeconómico, a política estabelecida no quadro de
uma elaboração estratégica deve criar as condições favoráveis à melhoria da
competitividade global da nação.
Uma política macroeconómica lida com cinco questões principais.
A oferta do governo na fase inicial de industrialização de um país é vital. É
preciso desenvolver as infra-estruturas físicas: transportes, comunicações, energia,
sistemas de distribuição, desenvolver a tecnologia, apoiar a I&D e proteger a
propriedade intelectual. Em termos de capital humano, o essencial é a política de
educação, incluindo a formação contínua para privilegiar comportamentos reactivos.
Finalmente, devem estimular-se os empresários e as pequenas empresas.
As estruturas legais e institucionais de uma nação não são menos decisivas. É preciso
agir legalmente ao nível macroeconómico e dar um mínimo de protecção ao consumidor.
No plano internacional, constata-se ao mesmo tempo uma concorrência das legislações e
uma harmonização progressiva. Observam-se também cada vez mais políticas de
privatizações. Nas economias capitalistas, é preciso saber manter relações sociais
satisfatórias, exigindo o respeito e a protecção dos direitos dos empregados e dos
patrões.
A redistribuição da riqueza
Melhorar a distribuição dos rendimentos não prejudica forçosamente o crescimento. O
economista Michael Todaro sugere que o preço relativo do trabalho é muitas vezes
superior ao determinado pelo mecanismo de mercado devido a constrangimentos institucionais
e políticos, enquanto o preço do capital é mantido baixo artificialmente. Ao
restabelecer o equilíbrio, poderia criar-se um incentivo para usar mais o trabalho para
criar empregos. Para além disso, as políticas de redistribuição devem interessar-se
pelo problema da concentração das riquezas no seio de uma nação, através,
nomeadamente, dos programas de educação.
Numa economia de mercado, são as empresas que criam riqueza e trabalho para as outras
actividades. O essencial é aproveitar estas oportunidades inerentes ao processo de
criação de riqueza. Uma empresa deve, em primeiro lugar, identificar o seu portfolio
industrial, avaliar a sua posição competitiva e, para desenvolver novas actividades,
interrogar-se sobre as suas competências. Segunda etapa: definir objectivos, em termos de
retorno do investimento, rendimento para os accionistas, fatia de mercado, gama de
produto, eficácia, inovação, imagem e condições de trabalho. Terceira etapa: a
estratégia define o posicionamento da empresa: manter-se num negócio nuclear em que
produz e reforça o seu valor acrescentado; penetrar as actividades de apoio, ancorando-as
na sua própria estrutura; penetrar as indústrias descendentes; ou ainda diversificar a
sua actividade para além da cadeia inicial. Estas escolhas dependem do atractivo de uma
indústria, das capacidades de internacionalização da empresa e do seu potencial de
expansão.
Aprendendo com as empresas
Não se trata apenas, para uma empresa, de reagir às mudanças externas, mas de
procurar activamente novas fontes internas de vantagens em torno das suas competências
essenciais, as que trazem, segundo os professores Hamel e Prahalad, um acesso potencial a
um vasto campo de mercados e um contributo significativo ao consumidor e ao produto
acabado, de forma a não ser copiado. Como existem competências nucleares, também
existem produtos nucleares. Uma posição dominante através de um produto nuclear para a
empresa permite-lhe influenciar a evolução do mercado global para esse produto. É
preciso interrogar-se sobre a forma de obter uma vantagem competitiva. As oportunidades de
reduções de custos e de lucro não são muitas. Daí a necessidade da estratégia de
diversificação.
Podem também alterar-se os termos de uma indústria, como fez a Canon para combater a
Xerox, alterando os processos usuais de distribuição de fotocopiadoras. Outras
estratégias têm por objectivo integrarem a qualidade e a inovação num produto,
posicionar-se em termos de marca ou concentrar os custos. Desta forma, as empresas
japonesas definem, antes mesmo do produto, o seu preço.
Por fim, a empresa deve penetrar o mercado mundial com várias estratégias possíveis:
visar a entrada nos mercados do Terceiro Mundo, usar um marketing de massas para
desbloquear alguns mercados, como fez a Pepsi na Índia, usar a imagem de um país
o impacte do made in France nos perfumes levou empresas estrangeiras a comprar empresas
francesas ou ainda estabelecer a sua própria marca de forma global. A rapidez das
mudanças tecnológicas e nos mercados implica muitas vezes encontrar formas de
organização mais flexíveis. Neste contexto, as alianças estratégicas são uma
resposta possível, porque permitem atingir a dimensão necessária para ser competitivo,
para racionalizar os processos de produção e explorar economias de escala.
As nações precisam de uma abordagem que as ajude a clarificar o que podem alcançar.
Todos os povos aspiram a uma economia saudável, a uma sociedade feliz e a um bom processo
político. Uma estratégia de criação de riqueza visa esses objectivos. Conceber
estratégias eficazes implica uma iniciativa, um posicionamento e uma aplicação
estratégicos. A iniciativa estratégica (v. caixa) é formulada a partir da posição
actual de uma nação em termos competitivos, internos e externos. Só então se fixam os
objectivos. São sempre os mesmos: aumentar o PIB per capita, melhorar a competitividade,
atingir um alto nível de emprego, estabilizar os preços, saúde pública, educação,
etc. Basta hierarquizá-los. Para os países menos desenvolvidos, os objectivos
económicos poderão estar em primeiro lugar, enquanto nos países desenvolvidos se
procura maior equilíbrio com os objectivos sociais e políticos. Os objectivos devem ser
quantificados e realistas. No global, a estratégia não tem modelo porque depende dos
dados de cada nação. A tradução política de uma orientação estratégica visa
identificar políticas cuja implementação conduza a uma melhor competitividade. Como
formular as políticas públicas primárias? Devem responder às funções essenciais do
Estado, que são, segundo Stephen Bell e John Wanna (1992), as seguintes: iniciador de
riquezas (promoção do desenvolvimento económico), protector (coesão social), regulador
(através de padrões fixados em matéria económica e social), árbitro (justiça) e
organizador. Estas funções são preenchidas eficazmente quando existe uma relação
saudável entre o governo e a economia, e entre os governos.
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Condensado do livro The Marketing of Nations, de Philip Kotler, Somkid Jatusripitak e Suvit Maesincee. © 1997 by The Free Press. Todos os direitos reservados. Traduzido por Geraldine Correia.
Philip Kotler é professor de Marketing
Internacional na Northwestern University (Illinois). Foi consultor de estratégia de
marketing para empresas como a IBM, General Electric e Bank of America.
Somkid Jatusripitak é professor de Marketing no NIDA, em Bangkok.
Suvit Maesincee é consultor da Booz Allen & Hamilton em Chicago e Bangkok.