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A Dell foi criada com apenas 200 contos, três computadores pessoais e umas
instalações provisórias, que funcionavam no dormitório da universidade. Hoje vale
cerca de quatro mil milhões de contos e é a segunda maior fabricante mundial de
computadores. Muitos perguntam-me como é que isso foi possível. A chave está em três
regras de ouro que são a essência do modelo da Dell: vender directamente (através de
vários canais), produzir à medida do cliente, eliminar os stocks e os intermediários.
Nós lidamos directamente com os clientes e os fornecedores. E todos os nossos empregados
se envolvem directamente nos detalhes diários do negócio. A Dell provou que vale a pena
tirar partido de oportunidades que os outros estão convencidos que não existem. Você
não tem que ser um génio ou um visionário para o fazer. Basta acreditar no seu sonho e
mergulhar intensamente no negócio. Este é o modelo que nos levou «directamente para o
topo». O início
da aventura. O meu interesse por computadores vem de há muito. De quando
tinha sete anos e comprei a primeira máquina de calcular. Mas o que me levou a iniciar a
empresa foi a constatação de que os computadores eram fabricados e distribuídos por via
indirecta, ou seja, só podiam chegar ao consumidor através dos retalhistas. Eu estava
convicto de que este matrimónio entre um comprador desconhecido e um vendedor invisível
não iria durar por muito mais tempo.
Logo, o meu negócio começou com uma questão simples: «Como poderei melhorar o processo
de compra de um computador?» E uma resposta directa: «Eliminando os intermediários e
oferecendo o dinheiro poupado ao consumidor final.»
Em 2 de Janeiro de 1985, no primeiro dia de aulas da Universidade do Texas, já tinha tudo
preparado para passar à acção. Registei a empresa com o nome PCs, Limited, e
coloquei um anúncio na secção de classificados do jornal local. No mês de Maio, uma
semana antes dos exames finais, passei a operar com a designação Dell Computer
Corporation. A jovem empresa já facturava 15 mil contos por mês, dedicando-se aos
upgrades de PC e à venda de componentes na região de Austin. Pouco tempo depois passei o
negócio para um espaço com 320 metros quadrados no Norte de Austin. E tive de recrutar
algumas pessoas para tomar nota das encomendas e outras para as satisfazer. O negócio
continuava a crescer, até que decidi dedicar-me a ele a tempo inteiro.
Crescimento rápido. Em 1985 mudámo-nos
para um edifício com 10 mil metros quadrados, grande como um campo de futebol. Mas não
chegaram a passar dois anos para surgir a necessidade de uma nova mudança. Muitos dos
elementos que moldaram a nossa cultura empresarial foram recrutados nessa altura. Nós
estávamos a viver uma aventura de alto risco. Por isso contratámos pessoas com espírito
de pioneirismo e versatilidade. Mas todos fazíamos de tudo. Os vendedores tinham de
instalar os seus próprios PC, o que lhes permitia conhecer as dificuldades que sentiam os
consumidores quando recebiam os computadores numa caixa.
Em 1986 contratámos Lee Walker como presidente, o qual foi o primeiro gestor contratado
na história da Dell. Na altura estávamos a crescer a um ritmo vertiginoso e
necessitávamos de uma grande quantidade de capital. Uma das primeiras acções de Lee foi
contactar o Texas Commerce Bank para pedir um empréstimo, o qual nos concedeu uma
confortável linha de crédito.
O modelo directo. Como estamos
constantemente a falar com os nossos clientes, sabemos exactamente aquilo que eles querem.
Sempre me pareceu mais sensato construir um negócio baseado no que as pessoas realmente
querem comprar do que em adivinhar aquilo de que necessitam. O modelo de venda directa foi
a nossa grande vantagem comparativa face aos concorrentes. No modelo indirecto existem
dois tipos de forças de vendas: as do fabricante para o comerciante e as deste para o
cliente. No modelo directo temos somente uma força de vendas totalmente focada no
cliente. E este não é um cliente qualquer, mas sim um cliente específico, que devemos
escutar e satisfazer.
O problema da notoriedade. Uma das barreiras iniciais à venda directa era a de que muitos
potenciais compradores receavam adquirir um computador de 560 contos a uma empresa
desconhecida. Para contornar esta desvantagem criámos a garantia de devolução total do
dinheiro nos primeiros 30 dias após a aquisição.
A qualidade foi outro factor de diferenciação. Tivemos alguns problemas de
compatibilidade com o standard da IBM e os fornecedores de componentes nem sempre
respeitavam os nossos padrões de qualidade, por isso, decidimos passar a desenhar os
nossos PC, adicionando-lhes componentes de melhor qualidade. E formámos parcerias com os
melhores fornecedores. A nossa grande vitória foi a construção de um PC com 12
megahertz, o que mereceu as honras de capa da revista PC Week. No final de 1986 a Dell
atingia 11,5 milhões de contos de vendas e vencia o seu problema de notoriedade.
A internacionalização. A Dell passou a
operar na Grã-Bretanha em Junho de 1987. Dos 22 jornalistas que estiveram presentes na
conferência de imprensa, 21 previram que íamos falhar. «O modelo directo é um conceito
americano. Na Europa ninguém irá comprar um PC directamente ao fabricante»,
vaticinavam.
Mas os clientes é que ditam as regras. O negócio da Dell neste país foi lucrativo desde
os primeiros dias. E hoje a Dell U. K. factura 380 milhões de contos por ano. A
internacionalização obrigou-nos a encontrar novas alternativas para financiar o
crescimento. Por isso, em Junho de 1987 lançámos uma oferta pública de acções que nos
rendeu 5,7 milhões de contos.
Aprender com os erros. No final dos anos 80
as vendas estavam a crescer ao ritmo de 96% ao ano. Atingimos essa marca porque nos
mantivemos fiéis à missão da Dell: vender computadores de qualidade, de acordo com as
especificações dos clientes, entregando-os rapidamente e oferecendo um serviço
exemplar. Nessa altura, as oportunidades de crescimento pareciam infinitas. Só que nós
subestimámos os riscos associados a elas. Essa foi uma lição que aprendemos da pior
forma.
A primeira má experiência ocorreu em 1989. Para fazer face ao aumento da procura tivemos
de comprar mais componentes, entre eles os chips de memória. Mas, em vez de adquirirmos o
número correcto com base nos pedidos de encomenda, comprámos todos os que pudemos, ou
seja, mais do que necessitávamos. A decisão foi tomada no pico de um ciclo de mercado. E
mais grave ainda: nos dias seguintes a capacidade de memória passou de 256 k para 1
megabyte. Conclusão: ficámos atolados em chips que nos tinham custado uma verdadeira
fortuna e que ninguém queria. Seguiu-se uma espiral de más notícias. Vendemos os stocks
a preços de saldo. Aumentámos o preço dos produtos. Perdemos vendas e resultados.
A crise seguinte deu-se com a linha de produtos de alta tecnologia que tinha o nome de
código Olympic. Era o projecto da Dell mais ambicioso de sempre. Mas os nossos clientes
disseram: «Não precisamos de tanta tecnologia, obrigado!». Aprendemos que só vale a
pena adicionar mais e melhor tecnologia se isso for considerado como algo valioso pelos
clientes.
Crescer mais para quê?
Após os dois fiascos referidos, a Dell Computer teve três anos gloriosos. O modelo
directo estava a funcionar em pleno. Lançámos novos desktops e notebooks, fizemos a
primeira incursão nos servidores, estávamos em mais mercados europeus e preparávamos o
assalto à Ásia. No final de 1992 a facturação atingiu 380 milhões de contos. Mas a
nossa estrutura era pequena de mais para tais valores. As nossas prioridades tinham de
mudar. Precisávamos de nos concentrar em crescimentos lentos, mas sólidos, e na
geração de cash flow. Em vez da sigla «Crescer, crescer, crescer», nascia uma outra:
«Liquidez, lucros e crescimento», por essa ordem.
Morte aos stocks. Os anos seguintes foram
caracterizados por uma profunda reestruturação interna: dos processos e da estrutura de
custos. Fizemos uma análise detalhada que nos levou a concluir, por exemplo, que, para
ganhar quota nos lares e no mercado dos pequenos negócios, tínhamos de modificar a nossa
estrutura de custos e ser mais agressivos nos preços.
Outro ponto fundamental da nossa estratégia foi a produção just-in-time. Como
construímos computadores consoante as necessidades específicas dos clientes, não temos
stocks elevados. E como os nossos fornecedores entregam os componentes à medida que
necessitamos deles, minimizamos os desperdícios. Deste modo as reduções nos custos
podem ser transmitidas rapidamente para os consumidores. Por todas estas razões, o
aumento da rotação de stocks é uma paixão da Dell.
Directamente via Internet. Em Junho de 1994
lançámos o nosso site. Os clientes que o visitassem podiam seleccionar um sistema,
adicionar ou subtrair várias combinações de componentes tais como memórias,
drive de disco, adaptadores de vídeo, modems ou colunas e obter o preço final do
sistema em tempo real. Dois anos depois chegou a hora do comércio elctrónico.
Começámos por vender notebooks e desktops. No final do ano começámos a comercializar
os servidores Power Edge a um preço competitivo. Mais uma vez provámos aquilo que os
outros diziam que não seria feito: os servidores podem ser vendidos através do modelo
directo. Hoje as vendas pela Internet atingem 2,28 milhões de contos por dia
O futuro da Dell. Sabemos que tivemos um
excelente arranque. As nossas acções valorizaram-se em 36 000% nos últimos 10 anos. Mas
cremos que o comércio electrónico só está no início. Eu sei que nenhuma empresa
consegue crescer eternamente à taxa de 50% ao ano. Mas ainda há muitas oportunidades no
mercado de PC, cuja taxa de penetração ainda é baixa, se a compararmos com o total da
população mundial. Tal como os telefones ou as máquinas de calcular, o PC vai
banalizar-se ainda mais. Mas o mais importante é que eu creio que a Dell é hoje uma
organização virtual integrada pela informação. E possui o modelo de negócio adequado
para vencer na nova economia: o modelo directo..
regra 1
«Venda directamente
aos clientes, usando vários canais»
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| 1980 O
jovem Michael Dell compra o seu primeiro computador, um Apple II, e desmonta-o, para
perceber a sua arquitectura interna. |
1983 Ele
cria o seu pequeno negócio de venda de computadores e componentes a partir do seu
dormitório na Universidade do Texas, onde era aluno do MBA. |
1984 Com um
capital inicial de 200 mil escudos, regista o negócio com o nome Dell Computer
Corporation e abandona a universidade em Maio desse ano. A empresa é a primeira do
mercado a vender computadores por marketing directo. |
1986 Dell
inventa o computador que bate o recorde da capacidade e apresenta-o na famosa feira da
especialidade, a Sprint Comdex. Nesse ano passa a oferecer a primeira garantia de devolução
nos primeiros 30 dias após a compra. |
regra 2
«Ouça os clientes.
Crie produtos à medida das necessidades individuais»
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| 1987.A Dell
abre a sua primeira filial no Reino Unido. Durante os quatro anos seguintes, foram abertas
mais 11 operações internacionais na Europa e Ásia. |
1988.A Dell
obtém seis milhões de contos na sua primeira oferta pública de vendas de acções. E
passa a ter um valor de mercado de 16,15 milhões de contos. |
1989 Surgem
as primeiras crises. A acumulação de stocks de chips de memória e o falhanço do
ambicioso projecto Olympic de PC de alta tecnologia são as primeiras pedras no sapato da
Dell. |
1990 .A
empresa torna-se a primeira da indústria a vender através de lojas de retalho como a
CompUSA ou a Best Buy. Mais tarde voltou a ser a primeira a sair do segmento, devido aos
maus resultados com esse desvio estratégico. |
1991. Ao
converter toda a sua linha de produtos para os chips Intel 486, os computadores da Dell dão
um novo salto qualitativo, que o mercado premiou. |
1992 A Dell
passa a facturar 380 milhões de contos, o que representa um crescimento de 127% face ao
ano anterior. |
regra 3
«Elimine os stocks na
produção. Elimine os intermediários na distribuição»
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| 1993.Pela
primeira vez teve resultados negativos, devido à queda da procura nos portáteis, à
saída do retalho e à reestruturação das operações na Europa. O lema é «Liquidez,
lucros e crescimento». |
1994.A Dell
lança o Latitude, que tem a bateria mais durável do mercado. Inaugura o primeiro
escritório na região da Ásia-Pacífico, onde teve o mais rápido crescimento da sua
história. |
1996.A Dell
lança a linha de servidores Power Edge. Em menos de dois anos, passa da décima posição
do mercado para a terceira. Em Junho começa a comercializar PC através da Internet. O
site foi um sucesso, facturando cerca de 190 mil contos por dia. |
1998.As
vendas pela Net atingem 2,28 milhões de contos por dia e nove mil clientes. É criada uma
rede com os fornecedores para diminuir os stocks e aumentar a velocidade e a qualidade da
informação. A Dell abre um centro integrado de apoio, vendas e fabricação na China. |
1999.A Dell
é a n.º 2 mundial, com 14,7 mil milhões de contos de receitas. Emprega mais de 29 mil
trabalhadores. Possui quatro fábricas nos Estados Unidos e uma na Malásia, na Irlanda e
na China.
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Directamente
DELL Internet
A Dell é um dos grandes casos de sucessos da economia
digital. O consumidor pode escolher entre três canais para dar as suas ordens de compra:
pessoalmente, via telefone ou através da Internet. Tem a possibilidade de escolher as
características da sua preferência e o computador é concebido à sua medida, segundo o
sistema just-in-time. As entregas são rápidas e o serviço pós-venda é considerado
exemplar. O site factura cerca de 2,2 milhões de contos por dia.
www.dell.com |
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O
cowboy dos computadores
A Forbes assegura que é o sexto homem mais rico do mundo,
com uma fortuna de quatro mil milhões de contos. A Fortune afirma que é o maior
milionário norte-americano com menos de 40 anos. Aos 34 anos, Dell ainda tem tempo para
amealhar mais uns trocos. Tem quatro filhos, vive numa mansão nos arredores de Austin e
gosta de conduzir modelos desportivos da Mercedes. Não é conhecido pelo seu carisma nem
visão. Apenas pelo seu grande jeito para os negócios.
www.dell.com/michael |
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Bibliografia
recomendada.
Direct from Dell. Escrito pelo próprio Dell
e Catherine Fredman (que colaborou com Andy Grove em Só os Paranóicos Sobrevivem), o
livro pode resumir-se numa frase: é a história de sucesso de um jovem que ganhou muito
dinheiro a vender computadores. O que o distingue dos demais? É que Dell reinventou a
indústria e tornou-se um símbolo da nova economia. O livro dá que pensar. Só é pena
ter poucos dados pessoais sobre quem é o homem que está por trás deste empresário de
sucesso.
Dell Way. Obra a publicar este mês pela Capstone que resume os 10
segredos da Dell. São eles venda directa, gestão de stocks, crescimento gradual, aposta
na Web, foco, inovação, globalização, personalização e parceria com clientes e com
fornecedores.
www.dell.com/michael |
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Condensado de Direct from Dell,
por Michael Dell e Catherine Fredman. © 1999 by Harper Collins. Publicado com permissão
de Editora Campus (São Paulo), que detém os direitos de publicação para língua
portuguesa. Adaptado por José Miguel Dentinho. |